segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Aquele do "Vira-latas, sem raça mas o melhor amigo do homem... Será mesmo?

 Fernanda nasceu de uma família de 3 filhos, pai e mãe. Sim, era uma família normal daquelas que com muito custo, com muita força de vontade e determinação conseguiu agregar um patrimônio que pelo menos, a vida de velho vai ser tranquila sem maiores empenhos financeiros. Eles nunca foram de ser dar bem, até porque família só sorrisos normalmente só existem em filmes, novelas da glogo e propagandas de margarina (margarina nem formiga come, tá... faz um mal da porra!)

Mas então é isso, e assim surgiu Fernanda, não vamos entrar no mérito da questão afinal todos imaginam como, mas ela nasceu a filha do meio dessa família. Seu irmão mais velho adorava ela, mas até uns 3 ou 4 anos, depois perde a graça porque criança é sempre um saco. Faz birra, chora, grita, essas coisas que só quem teve irmão sabe do que estamos tratando aqui. Mas, tudo era diferente nesse lar.

Fernanda, em particular, que é o personagem dessa história cresceu com alguns recalques, como tratava Freud, e sua participação familiar apenas amplificou esses recalques os quais, infelizmente, vão acompanhar ela par a vida toda. Por ser a do meio, sempre esteve no meio: no meio das alegrias, no meio das tristeza, no meio, no meio e no meio. Nunca teve para si aquele abraço apertado verdadeiro, quando pensava em ter, era subtamento interrompido pois ou o mais velho ou sua irmã mais nova, chegavam e interrompiam todo os processo. 

Fato é que a família vai importar cada vez menos daqui para frente, o foco será em Fernanda. Esta sim, por conta da criação acabou desenvolvendo em seu ser o famoso e comum Complexo de Vira-latas. Este complexo consiste no ser que nasce e se desenvolve de forma que o portador desse complexo tem uma tendencia de autodepreciação enorme, e que sem uma ajuda externa, acaba vivendo sempre com essa sensação de que qualquer um é melhor. A pessoa com isso sabe que é boa, mas diante dos outros, acaba por se colocar em 2º lugar.

É o que normalmente assistimos nos eventos esportivos, nossos atletas ao invés de ir para competir, eles vão, voltam e se contentam em terem participado. Simples, já valeu por ter ido.

E assim foi com Fernanda, que cresceu sempre achando que as amigas eram mais bonitas, que as roupas, as casas, os namorados das outras eram sempre melhores do que as dela. Isso arruinou as chances iniciais de uma carrera no mercado de trabalho, arruinou seus namoricos, e levou ela a um estado semi-vegetativo, no qual, exageros à parte, deixaram ela numa condição de levantar, sair, trabalhar e voltar, e assim, every fucking day...

Quando Fernanda estava beirando seus 38 anos, algo aconteceu. Ela conheceu um carinha, segundo ela lindo, na minha opinião, não vou opinar... Esse carinha, um tal de Afonso, fez com que ela percebesse de forma rápida o quanto ela era linda, inteligente, capaz, sagaz e tudo mais que até então ela nunca tinha sido. E isso causou uma transformação na vida dela. Ela sumiu do mapa, meio que abandonou tudo e todos que por aí estavam. Junto com Afonso, compraram um furgão e saíram viver o mundo, mas não se tornou youtuber, ela preferiu viver intensamente tudo aquele que ela nunca tinha vivido por se achar menos que os demais.

Agora, Fernanda não é apenas uma mulher, ela se encontrou uma mulher fodona... Ela manda em si, mas tem Afonso como amante, marido, namorado, amigo, confidente, cozinheiro, lavador de roupas e banheiro e assim, eles vivem felizes. Nunca se pode imaginar quando alguém vai chegar e fazer tão bem para uma pessoa como Afonso fez para Fernanda, que até então, era uma viralatinhas, agora, é um mulherão da porra!

A vida é isso, são ciclos, são movimentos, são essas situações "fofas" que nos fazem querer e pensar em viver cada vez mais.


sábado, 21 de agosto de 2021

Aquele do "Enfim, um dia a hora sempre chegará!"

 Sim, a hora chega. E Paloma não teve como evitar essa chegada. Ela estava na plenitude da vida, bom emprego, morava num apartamento bem bacana, se alimentava direitinho seguindo as instruções de sua "nutri" como ela mesmo se orgulhava em falar... Sua rotina era viver sem rotina. Seu emprego não exigia cumprimento de horário e sim, produtividade. E, depois do trabalho era bastante comum aquelas esticadinhas no PUB preferido pela galerinha.

Era uma mulher moderna, não exigia muito da vida mas vivia intensamente cada minuto. Gostava de defender o meio ambiente, costumava usar roupas de marcas ambientalmente responsáveis, produtos com pegada ecológica, não tinha carro, preferia sua bike, que com muito empenho comprou na cor e no modelo que tanto queria.

Paloma era um estereótipo de sucesso, ou de mulher de sucesso: independente, inteligente e por fim, muito linda também. De certa forma, se considerarmos os padrões impostos pela sociedade moderna, no que diz respeito ao ser, Paloma era tudo que poderia querer.

Infelizmente, foi em uma quarta-feira, um dia de sol lindo em Curitiba. Ela morava há 15 minutos de bike do ser trabalho. Nesse dia, resolveu acordar mais cedo, usou seu laptop para realizar algumas ações e deixar tudo preparado para a hora que chegasse no trabalho. Enviou os e-mails que precisava enviar, mandou algumas mensagens para alguns colegas avisando que já tinha dado o andamento e para uma amiga mais próxima, avisou que estava descendo para pegar sua bike e ir para o trabalho.

Ao chegar no estacionamento de bicicletas do seu prédio, ela teve uma sensação meio estranha, mas ignorou, pegou sua bicicleta e rumou para seu trabalho. Tudo ia muito bem, mas em um trecho extremamente tranquilo, uma BMW Branca, perdeu o controle mesmo sendo uma linha reta, atingiu um poste e de forma precisa, ao rodopiar, colheu Paloma que ao menos teve tempo de saber o que houvera acontecido. 

Todos temos a hora certa, e se era certa ou não, que diferença fará? Paloma, esticada embaixo da BMW toda destruída, um bêbado desce do carro, mal consegue ficar em pé e mesmo assim, meio que rastejando, tenta em vão fugir do local. Populares logo foram ao socorro de Paloma, que não respirava mais, a pancada foi forte. Enquanto alguns tentavam em vão chamar o SIATE e dar atenção ao corpo que ali estava, outros seguraram o bêbado, que insistia querer ir embora.

Essa quarta-feira, foi fatal para Paloma e foi um divisor de águas para o motorista da BMW que, sendo um bom advogado, conseguiu junto aos seus, receber uma punição tão ridícula quanto chupar um pirulito: 2 meses de trabalho voluntário, que simplesmente valeram muito muitos, mais muito menos do que a vida de Paloma. 

Quem chora hoje é a família dela, enquanto, o responsável vive impune!

A hora, sempre vai chegar!


quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Aquele do "Se você não sabe, é mais bonito ir dormir calado do que falar merda!"

 Eu não vou desistir de escrever sobre coisas aleatórias como venho fazendo nos ultimos tantos textos desse blog. Mas também, não tenho sangue de barata para conseguir ficar ouvindo tanta besteira, de tanta gente que um dia considerei inteligente mas que, a cada novo segundo que passa, demonstra sua bestialidade e ignorância em relação a temas tão banais quanto um montinho de fezes caninas numa calçada de madame.

Sim, caros e nobres leitores, hoje o tema do texto é voto, urna eletrônica, imbecilnaro, hipócrit-lula e o os outros demais, todos eles sem excessões de partidos e de linhas políticas. O que interessa para mim é saber que sei e o quanto estamos caminhando para um fim inevitável. Fim esse que iniciou-se com a polarização e com a divisão entre dois times, mas que na verdade é muito mais ampla, mesmo ocorrendo no sistema 1 ou 2, par ou impar, 0 ou 1 essas coisas.

Há muitos anos, muitos mesmo, eu e meu antigo sócio que hoje não está mais nessa nação e que tenho a certeza está muito melhor do que nós brasileiros, discutíamos até que ponto o conhecimento era bom. Até que ponto o estudo tinha nos tornado pessoas melhores. Até que ponto, continuar nessa busca por explicações e informações realmente nos fazia bem ou era minimamente necessário. Outro dia escrevo sobre isso o texto de hoje tem outro objetivo.

Vamos lá, no dia 10 de agosto, a proposta de que houvesse a impressão do voto nas urnas eletrônicas foi arquivada. Uma derrota para o idiota atual mas uma grande vitória para a nação brasileira, que vai economizar muito dinheiro evitando a compra de impressoras que inevitavelmente (a seguir o modelo brasileiro de fazer negócios) seriam compradas com superfaturamento, seriam entregues modelos inferiores aos pagos e com toda certeza dariam muito mais problemas do que poderiam trazer de soluções.

Mas o caso nem é esse e é por isso que eu me envergonho de ser brasileiro e de ter esse país como nação e você e todos os demais como "irmãos de pátria".

Talvez você que está lendo esse texto não tenha a menor noção de programação. E isso nem é problema seu, é uma felicidade para você... Mas vamos lá, vou perguntar algumas coisinhas e você vai respondendo para si  mesmo, quem sabe assim você consegue compreende a ideia que quero passar, mas veja que não quero ter razão, quero tentar ajudar você a pensar com a razão.

Você usa aplicativos do tipo UBER, IFOOD, entre outros?

Esses apps são legais né, facilitaram nossa vida, ajudam no dia a dia e tudo mais. Por trás deles há um time imenso de programadores que estão sempre atentos às "necessidades dos clientes", e assim, há sempre continuamente um desenvolvimento de programação. Esses apps, escolhem o que indicar para você, considerando onde você está, o nível médio de seus gastos e entre outros tantos muitos fatores. E o que isso tem haver com a urna eletrônica?

Nada!

Mas tudo!

Programar uma urna eletrônica, é um desafio competitivo enorme. Ela precisa ser confiável, segura e tudo mais de bla bla bla - e olha que somos tão competentes que o mundo quase inteiro não utiliza, só nós, e somos melhores que todos eles.

Mas, veja bem, eu não vou programar isso apenas alertar sobre o que e como eu vejo acontecer.

Uma fraude numa urna eletrônico nunca será um ataque de hacker, nem mesmo uma invasão. Uma fraude numa urna nunca vai partir de um partido ou de um candidato. Uma fraude numa urna nunca teria como ser provada muito menos com o voto impresso. Mas, sim, ela é vulnerável e com toda certeza teremos isso acontecendo.

O problema é que tanto bolsonaristas e contra-bolsonaristas estão usando o argumento errado e pior, estão combatendo uma doença com um remédio final sem sequer saber as causas.

Voltando a programação:

- você sabe que é possível programar qualquer dispositivo eletrônico digital para executar uma tarefa diferente da qual você quer? Por exemplo, você pode programar uma urna para que ela registre um voto para fulano, depois que 3 votos sejam registrados para ciclano. E se quiser imprimir, ele pode ainda registrar no papel, um terceiro voto. 

Simples assim. Não estou dizendo que isso acontece, mas estou afirmando que é possível sim acontecer. E mesmo que os tribunais disponibilizem equipamentos para os mais diferenciados testes, nada disso pode ser comprovado sem que se tenha uma análise muito criteriosa no código fonte. Que é óbvio, ninguém terá acesso. 

Ou seja, voto eletrônico é uma fria, voto impresso é uma idiotice e o sistema democrático brasileiro é uma piada sem graça, e logo escreverei sobre isso. Não existe democracia efetiva num país onde há fome, onde as pessoas dão mais valor ao que aprendem nas redes sociais e que tem habitantes que estão às margens da informação séria.

Esperar o que de um país onde se cria um "Consórcio de Veículos de Comunicação"???

Fui!!!

domingo, 1 de agosto de 2021

Aquele do "Os causos contam..." - Edição 4 mãos!

Os textos criados por último no DLQ tem sido um exercício pois estou buscando escrever sobre qualquer coisa que não seja política, lula porco, bolsonaro viado ou qualquer coisa ligada a política. E tenho ficado satisfeito com meus textos.

Hoje, apresento aos leitores do DLQ, o primeiro texto, pequeno, escrito à quatro mãos. Sim, pela primeira vez nesse novo estilo, apresento um texto feito de forma colaborativa. Toda e qualquer semelhança com situações reais é apenas uma coincidência e nem foi o objetivo.

Segue:

QUEM PRESTA?

Mas afinal de contas, o que é prestar ou não prestar? Homens não prestam! Mulheres não prestam! Será mesmo? 

 

Vou começar por um grande amigo: ele presta! Ele trabalha, ele cozinha, ele abre a porta do carro. Ele lava, ele passa, ele sabe o que fazer para deixar uma mulher louca! Ele não presta? Talvez não, porque ele oferece demais, o que você acha? 


Eu acho que homens e mulheres prestam sim!

Só que temos que aprender a diferenciar. Homem é diferente de muleque, mulher é diferente de guria!

É muito fácil se envolver com alguém sem maturidade nenhuma e ao final, rotular como um todo, por exemplo, se envolver com um cara, que te machuque, e ao final você pegar toda essa dor, e em uma tentativa de amenizá-la você internalizar a ideia e ficar com a visão de que

"Homem não presta, não dá pra confiar"

Na verdade, independente de ser um cara ou uma guria, a falta de compromisso consigo mesmo e com o outro é o que mais dói. É o que mais machuca.

É como esse grande amigo meu sempre faz: se é para se entregar, ele vai com a certeza! A certeza do que quer! Me espelho nisso, se é para gostar, que goste. Se é para querer, que queira. Se não, cai fora e seja feliz!


Ps. Este texto foi escrito à 4 mãos. Por mim e por @text_ualizei


sexta-feira, 16 de julho de 2021

Aquele do "Os causos contam..."

* Observação: este é um texto de ficção, não representa ou apresenta qualquer conexão com a realidade ou história de alguém. Ficção!

Hoje, depois de anos escrevendo nesse blog foi perceber que eu poderia escolher a fonte, pois eu amo essa fonte que estou usando agora. Verdana. Mas independente da fonte, hoje o texto é sobre ela, Josléia... Sim gente, há pessoas que recebem nomes como Josléia. E tão estranho quanto o nome era ela mesmo. Josléia não era estranha quanto à sua beleza, até porque era uma mulher linda, de lindas curvas e um carinho imenso. Mas ela era estranha.

Desde criança, não demonstrava muita vontade de interagir com seus amigos. Não, ficava isolada num canto, destruindo os cabelos de suas bonecas que seu pai, viúvo e batalhador fazia questão de comprar toda sexta-feira. Não gostava de vê-la a destruir as bonecas, mas isso era a unica coisa que acalmava a menina cujo nome, a mãe havia escolhido em homenagem a uma tataravó.

Josléia cresceu em meio aos carrochos de seu pai, seu pai sempre amável, algumas visitas das avós até que estas morressem e uma tia, a Zilda, solteirona na casa dos 65, meio safada. Josléia adorava sentar no seu banquinho no jardim, largava suas bonecas e ficava ouvindo histórias de sua tia, que sempre estava com um copo de pinga (tinha que ser a 51) e sua carteira de cigarros que durava algumas poucas horas (tinha que ser o Free), sempre.

As histórias iam de lições de vida à verdadeiras fantasias da velha senhora. Ela nunca quis se casar, era filha de militar, havia herdado uma boa herança e uma boa pensão digna de países como o Brasil. Nunca trabalhou, nunca estudou mas soube administrar e muito bem seus bens.

Foi nesse ambiente que Josléia cresceu e desenvolveu seu carater. Formou-se em letras, depois em pedagogia mas foi no direito que se encontrou e decidiu trabalhar por todas aquelas mulheres que infelizmente sofrem violência doméstica. 

Um dia, ao sair de casa, duas coisas aconteceram, as quais mudariam de forma muito contundente sua vida. E contundente aqui, vai se tornar algo bastante literal. Ao sair de seu condomínio, com seu carro, logo na primeira esquina envolveu-se num acidente de pequena monta, no qual, acabou por derrubar um ciclista que desrespeitou o sinal de pare. Pronta e sempre muito justa, parou, desceu do carro, ligou para e a emergência e foi prestar atendimento ao ciclista. 

Ao melhor estilho novela da Rede Bobo, quando ambos se olharam, ambos tiverem a certeza de que o atropelamento, não havia acontecido por acasa. Socorro prestado, tudo ajustado, Josléia partiu para seu escritório. Chegando lá, recebeu uma ligação de sua amiga, Rose, que cometou que ocorreria um concurso para policiais civis e que a vaga de delegada da mulher, estava aberta. Josléia não pensou duas vezes se inscreveu e começou a buscar se capacitar para tal. Ao mesmo tempo, teve que tratar de assuntos relacionados ao atropelamento, mas algo mais surpreendente aconteceu.

Eles começaram a sair. A cada encontro, a chama do amor foi ficando ainda mais aquecida, Josléia que nunca havia gostado assim de alguém, agora estava sentindo a sensação da mão que sua, do coração que dispara. Em pouco tempo estavam namorando e a história evoluindo...

Porém, como já comentado, aquele dia do atropelamento mudaria a vida dela para todo o sempre. No dia do concurso, após voltar da prova, Josléia chegou em casa e encontrou seu amado, bêbado, ele já havia destruído tudo que ela conquistou em anos de trabalho. Não contente, ele avançou sobre ela. Infelizmente, a pancada com o pedaço de cabo de enxada causou um traumatismo craniano que, se fosse socorrido a tempo, até poderia ser revertido. 

Infelizmente, ele pegou um litro de pinga, trancou a casa e foi embora. Ela, que nunca amou e depositou todas suas esperanças nesse homem, morreu como uma indigente, abandonada e vítima de tudo que ela mais queria defender.

A vida é uma caixinha de surpresas, a vida é sim, até deixar de ser, aí então, viramos apenas um corpo que a terra vai comer.

Triste fim de Josléia...


sexta-feira, 9 de julho de 2021

Aquele do "Os causos contam..."

 Sim... Ele era rico. Pensa em um homem rico... Aquele carro velho que ele dirigia escondia de forma muito contundente a dinherama que ele possiuia. Não era na conta corrente, mas eram em bens. Só de imóveis, ele tinha mais de 70 na cidade. Ouro debaixo da cozinha, jóias, obras de arte e tudo mais que você possa imaginar. Ele era realmente um desconhecido, não queria fama, não queria nem ser visto e assim mesmo que chegou ao seu fim!

O ano era 2019. Um dia, seu filho, que nem imaginava quanta riqueza seu pai tinha e que impreterivelmente todos os dias às 11h35 ligava para o pai, nesse dia 8 de agosto, uma quinta-feira, ligou. Mas o telefone não foi atendido. Insistiu às 11h36. Mas o telefone insistiu em não ser atendido. Às 11h37? Nada. E assim foi.

Seu filho então, pegou um Uber (essa geração moderna insiste em não possuir carro) e foi até a casa de seu pai, pois tinha a chave e toda liberdade para entrar a hora que fosse a menos que, houvesse um lenço na porta, o que indicaria que seu pai estava realmente ocupado (para bom entendedor...)

Mas, se assustou ao ver que não havia lenço. Ambos carros, o velho caindo os pedaços e a BMW zero KM estavam na garagem. Entou, ainda com a calma que lhe era peculiar, chamou por seu pai mas não houve resposta. Começou então a buscar pela casa, que não era gigante mas exigia um certo tempo entre subir para o segundo pavimento e depois o terceiro pavimento.

Quando chegou no terceiro pavimento, bateu na porta do quarto do pai, que tinha uma vista maravilhosa, não houve resposta. Foi ai que o coração de Bruno começou a bater mais forte. Havia anos que ambos se falavam sempre, chovesse ou fizesse sol, às 11h35, mesmo que fosse para dizer um oi, tudo bem ou então, um como vai, velhote...

Nesse dia 8 de agosto de 2019, já não houve esse contato tão importante, mas o que Bruno encontrou ao entrar no quarto, foi o que arrancou-lhe o chão. Seu pai estava de bruços no chão, caído, um pouco de sangue já muito coagulado estava no chão próximo à cabeça de seu pai. Tentou em vão achar algum batimento cardíaco, usando técnicas que aprendeu assistindo aos seriados médicos. Tentou no pescoço -sem sucesso; tentou nas têmporas - sem sucesso.

Sem chão e com a calma que não se sabe de onde veio, ele ligou para o serviço de urgências médicas, também conhecido como SAMU - Serviço de Atendimento Móvel de Urgência - que demorou apenas uns 8 minutos para chegar, mas que ao chegar só atestou o que Bruno não queria ter que ouvir, alí, sozinho: seu pai está morto! E já faz algum tempo, pois o corpo encontra-se em estágio inicial de decomposição.

- Impossível, gritou ele! Nos falamos ontem, às 11h35...

Fato é que não havia nada que pudesse ser feito. A vida existe até que a morte chegue. E chegou para Roberto. Todo o dinheiro do mundo, todo o ouro guardado, obras de arte, jóias, imóveis não foram suficiente para dar a ele o que ninguém pode ter: vida eterna.

Sua riqueza hoje é alvo de briga entre Bruno, sua mãe e uns dois ou três filhos que Roberto passou a ter após sua morte mas que nunca foram seus filhos, nem de criação muito menos de descendência. 

Sim, ele vivia uma vida solitária, sua mulher resolveu deixar ele depois que percebeu que Roberto gostava de sair pouco, que tinha hábitos mais caseiros. Seu filho, Bruno, até ia a sua casa, passava algumas horas, um recorde era quando passava mais de um dia. A solidão estava para sua vida assim como o dinheiro estava para suas contas: sobrava!

Bruno percebeu que a única coisa que seu pai nunca tivera foi um amor de verdade. Aquele incondicional que todos perseguem, poucos tem e menos ainda são aqueles que podem oferecer. Não estou falando de amor como nos filmes ou novelas, não estou falando de amor selvagem ou coisas assim, mas aquele amor incondicional mesmo, aquele de "na saúde ou na doença, na alegria ou na tristeza"... 

Enfim, Roberto, que durante seus 51 anos acumulou o que 100 homens comuns acumulariam numa vida inteira, se foi, sem sequer usufruir de uma mízera parte de toda essa riqueza.

Vá Roberto, descanse em paz. Tenha em seu coração a certeza que numa próxima, valorize o amor e menos o dinheiro... Valorize a vida e menos o sucesso econômico. Valorize pequenas coisas, pois no final da vida, grandes ou pequenas, daqui, não levaremos nada!

Vá Roberto, em tua memória ficará a lição!

Vá Roberto!!!

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Aquele do "Os causos contam..."

* Observação: este é um texto de ficção, não representa ou apresenta qualquer conexão com a realidade ou história de alguém. Ficção!


Infelizmente sua infância não foi um mar de rosas como poderia ser ou é a de pessoas mais afortunadas. Não, ele teve até que certo conforto mas desde sempre precisou ralar muito para não conseguir chegar a lugar algum. Filho de pai alcoólatra, descobriu-se também admirador de uma cachaça e assim fazia de vez em quando, era tanto, que caía pela ruas. 

Sim, a bebida acabou sendo sua companheira, sua parceira e a mãe de muitos dos problemas que ele enfrentou. Seus dentes apodreceram, sua aparência mostrava pelo menos uns 30 anos a mais do que realmente tinha. Nunca teve esposa e filhos, pois filho de uma família desorganizada, talvez menos que isso não pudesse mais ser. Nunca teve muitas ideias e nunca teve aquelo que chamam de ambição. Eram constantes os momentos onde seus amigos faziam dele um burro completo, roubavam-lhe dinheiro, vestimentas, objetos, quiçá sua dignidade. 

Por vezes, passava fome, dormia onde dava e por outras tantas vezes, nem fome sentia mais de tão comum que havia se tornado ficar sem comer. Mas, nesses dias, um trocado no sinaleiro, alimentava uma noite fria de Curitiba com a mais barata e letal cachaça que encontrasse. Uma época era engraçado, pois a 'marvada' se chamava Leãozinho... Tinha cor de cachaça mas de longe cheirava aquele etanol para carro...

Um dia, ou melhor, uma noite, estava no cruzamento da Marechal Floriano com a Avenida Sete de Setembro onde conseguiu com a benevolência de muitos que ali pararam no semáforo, juntar algo próximo a 15 reais em moedinhas e uma senhora lhe deu uma carteira de cigarros pela metade, até aqui ele nunca tinha fumado e 5 reais. Essa senhora foi realmente uma das pessoas mais importantes na vida dele, não pelo valor ou cigarros, mas foi uma das únicas que o fez sem perguntar para que era e ainda disse para que Deus o acompanhasse.

Nessa noite, juntando todos os trocados, ele conseguiu uma marmita por 10 reais, sem carne, é claro que muito arroz e farofa, mas para quem tem fome, chupar prego pode ser um alimento. Os outros 5, quase 6 reais ele negociou dois "bujãozinhos" de 250ml de Leãozinho... Achou uma cobertura, das poucas que sobraram para os moradores de rua, se abancou, e antes de comer todo aquele arroz, resolveu fumar um cigarrinho. Assim fez com 1, 2, 3, logo achou outro vício, só que mais caro. Resolveu guardar os demais para a hora que fosse beber, ou melhor, se aconchegar nos ombros da cachaça.

Jantou, juntou suas "louças" e levou até a lixeira pública mais próxima.

Organizou seus trapos, estava frio, menos de 5ºC, começou a beber e logo após, um cigarrinho atrás do outro. Ele aprendeu a gostar rápido do tal do cigarro. Talvez, estivesse levando a sério demais a questão de que o câncer mata afinal, que motivos ainda encontrava para viver? Mas, a cada amanhecer ele se lembrava da beleza do sol, e assim, tentava mais um dia achar motivos para viver mais intensamente.

Mas essa noite, não seria tão boa para ele. Um grupo de 3 rapazes, todos eles filhos de pessoas influentes da cidade, resolveu ir até uma boca, comprar um pó branco. Cheiraram cocaína até seus narizes ficarem brancos. Cheirados, esvaziaram um extintor de incêndio nas putas que fazem ponto em algumas ruas do centro. Não contentes, compraram garrafas de água e latas de refrigerante com as quais feriram pelo menos umas 4 ou 5 travestis ali do centro também. 

E quando pararam nesse sinaleiro, onde nosso personagem dormia, não perderam tempo. Lembraram daquela garrafa de álcool que havia no porta malas. Desceram os 3, jogaram álcool no ainda quase digno homem e atearam fogo. Estava frio, ele tinha pelo menos umas 3 vestes, o fogo o consumiu de forma a matá-lo quase que instantâneamente.

Ironicamente, nosso personagem era descendente de alguma raça que não sei qual é, mas ele tinha seus cabelos ruivos e era chamado de foguinho. Foguinho, morreu queimado. Foguinho, que nunca fez mal a ninguém, recebeu uma raiva gratuita que nem o pior dos piores merecia. Carregado de sua dignidade de mesmo tendo saído das piores situações, nunca ter feito nada contra ninguém.

Foguinho apenas via um mundo que poucos vem. 

Foguinho, incendiou-se, ou melhor, foguinho, foi queimado.

E enfim, foguinho se apagou para a tristeza de ninguém, para a saudade de ninguém e para não deixar marca alguma no mundo a não ser, a fuligem do seu corpo queimado.

Os autores? Estão livres, hoje devem ser engenheiros, advogados e talvez até médicos. Pois eles, tiveram tudo e não souberam usar, mas ainda assim, seus pais devem tê-los protegido.

#fui


terça-feira, 4 de maio de 2021

Aquele do "Os Causos contam..."

 Durante minha vida, as histórias que mais me comoviam eram justamente as que envolviam pais de família. Quando algo acontece com eles, sofrem as esposas, os filhos, alguns amigos, e por ai vai. Certo dia Alex, um pai de família, um pai de duas princesinhas lindas - puxaram a mãe graçasdeus - como diria Alex se uma cerveja pudesse estar tomando com seus amigos, levantou cedo, trocou seu pijama pela roupa que usa para trabalhar, verificou se as sacolas que evitavam que seu pé enxarcasse durante o dia se chovesse estava nos bolsos da blusa mais ou menos adaptada para andar de moto, verificou o de sempre, óleo, freios, luzes, placa e, depois de acenar para sua mulher que encontrava-se na janela da cozinha, montou sua CG e saiu para trabalhar.

Quando ela ouvia o barulho do portão rústico feito de folhas e alguns metalons seu coração ficava apertado, pois ele era motoboy e a grande maioria sabe que é uma loteria com chances reais de ganhar, ou nesse caso, perder a vida. Jessica então, foi acordar suas meninas, que deveriam ter tarefas de casa. Acordou Yasmin e Larissa, serviu a ela aqueles dois pães que sobraram de ontem - Jessica tinha um truque, ela queimava os dois no fogão usando um garfo e as meninas adoravam, comiam sem qualquer tipo de recheio.

Enquanto as meninas comiam, Jessica sentiu algo diferente em sua barriga, mas não ligou.

Já era hora de as meninas irem para a escola, Jessica então com dores na barriga ainda mais fortes, foi até a frente da casa, esperou com as meninas a van escolar e depois que elas foram para a aula, entrou e resolveu costurar, ela estava fazendo uma nova jaqueta para seu Alex, pois a dele já estava meio velha desgastada. Mede daqui, mede dali, a dor aumenta, ela vai ao banheiro.

Quando se senta no vaso, mais do que a dor, ouviu um barulho estranho, como se algo grande tivesse caído na água, e realmente havia caído. E o que ela viu infelizmente não era nada bom. Era uma bolota de sangue, do tamanha de uma bola de tenis mais ou menos... Com dores cada vez maiores, se sentindo fraca, se arrastou até o telefone, ligou para 193, pediu socorro. Infelizmente o 193 pediu para ela ligar para o 192... O 192 prontamente respondeu pedido que aguardasse que uma ambulância chegaria logo. 10 minutos se passaram, 15, 20, 30 minutos. 

Jessica já não estava mais consciente a hora que a ambulância finalmente chegou. Seu pulso era fraco, ela estava pálida como uma parede branca, não tinha forças para sequer responder as perguntas básicas que os socorristas costumam fazer. Colocaram ela na prancha, amarraram, e estavam levando ela para a ambulância quando ela inexplicavelmente segurou a mão de uma das socorristas, balcuciou algo que a socorrista precisou se abaixar para ouvir, então chamou por Clara... Quem é Clara, quem é Clara, dizia a socorrista. 

Clara logo se apresentou, a socorrista então passou o recado: cuida do Alex e das meninas e quando terminar a jaqueta, diga que fui eu que pedi.

Entraram na ambulância, partindo para o hospital mais próximo conhecido também por abatedouro pois quem lá entra dificilmente sai e assim, contrariando tudo e todos, ela saiu.

Saiu, e ao sair, encontrou sim, sem marido e filhas na porta do hospital, ele carregando algumas flores -seu dinheiro era curto - as meninas seguravam cartinhas feitas ao papai do céu. Entraram então no carro de um visinho e foram para casa.

Chegando em casa, Jessica contou para Alex que, aquele sangue que caiu no vaso era na verdade, um bebê que nenhum, nem outro sabiam que estava a caminho.

Eles se abraçaram, choraram por horas. Alex por não ter perdido sua amada, Jessica por estar viva e ter perdido alguém que ela iria amar, mas que o tempo não a permitiu.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Aquele do "Os Causos contam..."

Ricardo... Ah, grande Ricardo. Não éramos bem amigos, mas o mais próximo do que se assemelhava ser. Por minha culpa. Nasci de família humilde (pobre), sempre assisti meus pais economizando e contando se o dinheiro daria para tudo. Ricardo não, ele gastava meu salário na época com Petshop para seus "filhos" de quatro patas. Andava em seu carrão de 3 letras, como ele chamava, importado pois o fabricado em Santa Catarina, segundo Ricardo, não prestava. Vinhos dos mais caros, cervejas feitas apenas para ele por um produtor aqui em Pinhais, mansão em um condomínio de luxo que quando - as poucas vezes que lá fui - me deixavam com vergonha de usar um sapato com o solado tão duro quanto o meu.

Sua cozinha, tinha a área umas 3 vezes maior que minha casa. Eram 4 cachorros, 2 São Bernardos, 1 Pastor Alemão e um Dog Alemão - ambos lindos, fedidos e caros de manter. Os 2 São Bernardos tinham até um cuidador para dar banho nos dias mais quentes apenas para eles se refrescarem. Quase me candidatei a vaga, ele ganhava mais que eu - com faculdade - mas desisti pois odeio cachorros.

Sim, Ricardo tinha tudo. Tudo que um homem poderia querer. Eram jantares, eventos, mulheres cada uma mais linda que a outra, 2 carros na garagem, um de 3 letrinhas e outro, elétrico para dizer que tinha, acho que nunca usou.

Duas funcionárias, indicação de sua mãe: uma apenas para cozinhar, sempre, o que ele quisesse. Ela fazia compras, cozinhava doces, salgados e ajudava quando recebia amigos, uma coisa não posso negar, Ricardo fazia um churrasco que era pior apenas que o meu, mas a outra funcionária cuidava da casa, suas roupas ou seja, ele era realmente feliz. Sim, desde que conheço Ricardo, nunca, em segundo algum, o vi chorando... Sequer lembro de tê-lo visto sem um sorriso estampado, unhas bem feitas, cabelo sempre cortado, ternos e roupas das grifes mais famosas.

Um dia, Soraia, a sua empregada que cuidava da casa me ligou. Não porque éramos amigos, como já comentei, mas para minha surpresa, em seu celular de ultima geração, meu contato aparecia com um @meu nome, e assim, ficava em primeiro lugar na sua agenda. Ela chorava, mas estava tentando se conter. 

Ela me disse: ele está deitado aqui, no chão do banheiro... Não se mexe... A boca está toda cheia de espuma, seus pés e mãos estão roxos. O senhor poderia vir para cá? 

Aquilo me pegou de surpresa, pelas características, eu já poderia imaginar. Liguei então para o doutor Carlos, amigo em comum, pedi que ele fosse com a máxima urgência para a casa de Ricardo. Liguei na portaria, eu conhecia os "sangue-bom", pedi para não deixarem ninguém entrar ou sair na casa do Ricardo a não ser o dr. Carlos e eu. Eu morava longe, estava mais ou menos no caminho quando Carlos me ligou e disse que eu deveria acionar a polícia pois a situação era complicada. Novamente, eu que nem era tão amigo assim, liguei para um amigo que tinha um amigo e assim conseguimos um terceiro amigo que era amigo de um investigador "sangue-bom" que rumou para lá com um amigo delegado pois a situação era mesmo complicada.

Chegando lá, estavam o investigador, o delegado, dr. Carlos e os legistas do IML. Ricardo tinha exagerado na dose de algo que sequer suspeitávamos. TInha exagerado uma única vez... E foi o suficiente. Ricardo exagerou naquilo que nunca poderia ter sequer experimentado qualquer época da sua vida. 

Ricardo, antes do ocorrido e para meu desespero, deixou uma mensagem programada para mim em seu email, o qual recebi logo depois de chegar em sua casa e vê-lo morto, esticado no banheiro.

Na mensagem, dizia assim:

"Amigo,

Se receber essa mensagem, tudo deu errado. Hoje encontrei com o único amor que tive, que tenho, que carrego comigo, mas ela estava com seu verdadeiro amor e confesso, não pude aguentar. Eu sempre tudo que quis, sempre tudo que não quis, sempre pude comprar qualquer coisa, mas não comprei e nunca pude ter o conforto que meu coração queria. Desejo que Nicole seja feliz como ela puder/quiser ser, para mim chega. Amei demais, mas aquelas mãos dadas foram forte demais para mim.

Amigo, um abraço, que nunca lembro de ter te dado.

Amigo, cuida de tudo, a senha do meu cofre é xxxx e você terá dinheiro para pagar tudo e o que sobrar é seu...

Ah, ligue para o Diego e peça para ele cuidar de tudo junto com você, ele tem as instruções do que fazer.

Amigo, seja feliz, pois eu nunca fui mesmo com tudo que tive."

Terminei de ler a mensagem, esperei que tudo fosse feito como manda a lei... Sentei, chorei por algumas horas, e então, liguei para Diego. Diego atendeu, perguntou quem era, disse meu nome e ele me respondeu: venha a esse endereço, já sei o que aconteceu. Tenho alguns papeis para você assinar...

Fechei a casa, que foi lacrada pela perícia logo depois, entrei no carro, mas não fui ao endereço. Não, fui para minha casa, liguei para todos que amo, disse que os amo, pedi que nunca me abandonem. Fui ao bar, tomei a melhor cerveja em homenagem ao amigo que nunca souber ter com tamanha intensidade. 

Vá Ricardo, que a morte aquiete o sofrimento de seu coração! 

Vá Ricardo, você foi, Nicole ficou, e a vida segue!!!

sábado, 1 de maio de 2021

Aquele do "Os Causos contam..."

 Não existem limites para os sonhos, não é mesmo! Patrícia nasceu e cresceu sonhadora. Olhava as fotos nas revistas de adolescentes e queria ser como aquelas meninas, sempre muito lindas, magras, olhos sempre claros, essas coisas. Mas, ela talvez não tenha tido a mesma sorte ou a vida proporcionou a ela sonhos diferentes. Mas, uma coisa ela tinha: uma beleza tão rara no coração, que qualquer fachada externa esconderia como ela era maravilhosa. Quem vê cara, não vê coração.

Desde pequena sua vida foi sofrida. Perdeu a mãe em um acidente de moto aos 4 anos. O pai, alcóolatra, fez de tudo com ela, mas por sorte, nunca abusou dela. Ele bebia, ficava violento, mas nunca sequer encostou um dedo nela, tinha ou medo ou respeito. Sim, Patrícia era uma mulher forte e sempre, desde criança aprendeu a lidar com o vício do pai, que teve que enterrar aos 12 anos. Foi quando foi morar com uma tia, a Zuleica.

E, foi com sua tia Zuleica que Patrícia teve a certeza que capa de revista, nunca seria. Quer dizer, acabou sendo capa, mas não de uma revista de adolescentes, mas sim de um jornal popular da cidade onde morava. Já nos primeiros dias as tarefas se acumularam. Patrícia tinha que lavar, passar, limpar, e sequer pode seguir seus estudos. A menina que queria ser enfermeira e ajudar outras pessoas, logo se tornou uma espécie de escrava. Sua tia dizia, se quiser comer, tem que pagar pela comida. Quer brincar, arrume outro lugar para ficar. Patrícia estava perdida, desamparada, abandonada!

Mas infelizmente, Zuleica tinha o mesmo problema do seu irmão falecido: bebia. E bebia demais. Inclusive, era famosa no bairro por conta das bebedeiras e pelo que mais aprontava. Ela sempre foi uma espécie de alegria da rapaziada, pois como não trabalhava, trocava favores sexuais pelo que precisava - comida e não foram poucas vezes, dinheiro.

Logo Patrícia descobriria esse lado de sua tia. Foi numa quinta-feira, era mais ou menos umas 3 da tarde de um dia muito quente, Patrícia estava no tanque, lavando uma montanha de roupas quando Zuleica chegou, acompanhada de dois rapazes - apontou Patrícia para os dois e disse que queria uma parte agora e a outra a hora que eles fossem embora. Patrícia tinha acabado de completar 14 anos. 

Ela conheceu uma parte da vida que ninguém merece conhecer. A dor, o despreso, a vergonha - logo estava falada nas ruas. Foram várias as vezes que sua tia proporcionou a ela tamanha dor, tamanha humilhação. E nunca dessa, Patrícia engravidou. 

Andava pouco pelas ruas e quando fazia, era apontada por todos, do mais hipócrita aos responsáveis, que, como de costume, estavam sempre soltos, prontos para fazer o mal a mais alguém. Numa dessas saídas, conheceu Arnaldo, um pastor de uma igreja evangélica local, aquelas que gritam bastante como se deus fosse surdo. Sim, o deus de Patrícia se mostrava mais surdo do que ela queria que fosse. Conversaram um pouco, o pastor se mostrou preocupado e também muito disposto a ajudar. Nesta noite, o pastor e alguns fiéis foram até a acasa de Patrícia. O pastor explicou para Zuleica que levaria a menina, pois ele queria que ela tivesse aquele filho, fruto de um estupro, e que ele cuidaria dela como uma filha. Zuleica, que nunca quis saber da sobrinha, apenas disse: vai tarde!

Na casa do pastor, os primeiros dias pareciam dias de novelas. Mas logo começaram os problemas. Um dia, a esposa do pastor saiu para ir na cidade mais próxima, e assim, Patrícia descobriu porque o pastor queria tanto "ajudar" ela. Os ferimentos levaram dias para cicatrizar.

Patrícia, que já havia desistido de sonhar, chorava.

Um dia, acordou com fortes dores. A esposa do pastor, essa sim uma mulher boa para Patrícia, colocou ela no carro mas não sem antes proteger o banco com um plástico, e levou ela até o hospital local. Mas chegando lá, o ciclo da vida se fez presente.

Patrícia deu a luz a uma linda menina, fruto de um estupro, quiçá coletivo. Mais ou menos 1 hora depois, o sangramento aumentou, Patrícia foi ficando cada instante mais fraca, até que o monitor cardíaco passou a emitir um som contínuo. Os médicos fizeram o que puderam, mas ela se foi. Junto com os sonhos que já tinha ido, quem sabe Patrícia se encontra com eles em outro lugar melhor.

Sua filha? Vai saber, no interior, naquela época, mãe que morria e filho não tinha pai, tadinho do bebê...

Assim, a história de uma menina sonhadora acabou. Acabou num pesadelo...