terça-feira, 4 de maio de 2021

Aquele do "Os Causos contam..."

 Durante minha vida, as histórias que mais me comoviam eram justamente as que envolviam pais de família. Quando algo acontece com eles, sofrem as esposas, os filhos, alguns amigos, e por ai vai. Certo dia Alex, um pai de família, um pai de duas princesinhas lindas - puxaram a mãe graçasdeus - como diria Alex se uma cerveja pudesse estar tomando com seus amigos, levantou cedo, trocou seu pijama pela roupa que usa para trabalhar, verificou se as sacolas que evitavam que seu pé enxarcasse durante o dia se chovesse estava nos bolsos da blusa mais ou menos adaptada para andar de moto, verificou o de sempre, óleo, freios, luzes, placa e, depois de acenar para sua mulher que encontrava-se na janela da cozinha, montou sua CG e saiu para trabalhar.

Quando ela ouvia o barulho do portão rústico feito de folhas e alguns metalons seu coração ficava apertado, pois ele era motoboy e a grande maioria sabe que é uma loteria com chances reais de ganhar, ou nesse caso, perder a vida. Jessica então, foi acordar suas meninas, que deveriam ter tarefas de casa. Acordou Yasmin e Larissa, serviu a ela aqueles dois pães que sobraram de ontem - Jessica tinha um truque, ela queimava os dois no fogão usando um garfo e as meninas adoravam, comiam sem qualquer tipo de recheio.

Enquanto as meninas comiam, Jessica sentiu algo diferente em sua barriga, mas não ligou.

Já era hora de as meninas irem para a escola, Jessica então com dores na barriga ainda mais fortes, foi até a frente da casa, esperou com as meninas a van escolar e depois que elas foram para a aula, entrou e resolveu costurar, ela estava fazendo uma nova jaqueta para seu Alex, pois a dele já estava meio velha desgastada. Mede daqui, mede dali, a dor aumenta, ela vai ao banheiro.

Quando se senta no vaso, mais do que a dor, ouviu um barulho estranho, como se algo grande tivesse caído na água, e realmente havia caído. E o que ela viu infelizmente não era nada bom. Era uma bolota de sangue, do tamanha de uma bola de tenis mais ou menos... Com dores cada vez maiores, se sentindo fraca, se arrastou até o telefone, ligou para 193, pediu socorro. Infelizmente o 193 pediu para ela ligar para o 192... O 192 prontamente respondeu pedido que aguardasse que uma ambulância chegaria logo. 10 minutos se passaram, 15, 20, 30 minutos. 

Jessica já não estava mais consciente a hora que a ambulância finalmente chegou. Seu pulso era fraco, ela estava pálida como uma parede branca, não tinha forças para sequer responder as perguntas básicas que os socorristas costumam fazer. Colocaram ela na prancha, amarraram, e estavam levando ela para a ambulância quando ela inexplicavelmente segurou a mão de uma das socorristas, balcuciou algo que a socorrista precisou se abaixar para ouvir, então chamou por Clara... Quem é Clara, quem é Clara, dizia a socorrista. 

Clara logo se apresentou, a socorrista então passou o recado: cuida do Alex e das meninas e quando terminar a jaqueta, diga que fui eu que pedi.

Entraram na ambulância, partindo para o hospital mais próximo conhecido também por abatedouro pois quem lá entra dificilmente sai e assim, contrariando tudo e todos, ela saiu.

Saiu, e ao sair, encontrou sim, sem marido e filhas na porta do hospital, ele carregando algumas flores -seu dinheiro era curto - as meninas seguravam cartinhas feitas ao papai do céu. Entraram então no carro de um visinho e foram para casa.

Chegando em casa, Jessica contou para Alex que, aquele sangue que caiu no vaso era na verdade, um bebê que nenhum, nem outro sabiam que estava a caminho.

Eles se abraçaram, choraram por horas. Alex por não ter perdido sua amada, Jessica por estar viva e ter perdido alguém que ela iria amar, mas que o tempo não a permitiu.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Aquele do "Os Causos contam..."

Ricardo... Ah, grande Ricardo. Não éramos bem amigos, mas o mais próximo do que se assemelhava ser. Por minha culpa. Nasci de família humilde (pobre), sempre assisti meus pais economizando e contando se o dinheiro daria para tudo. Ricardo não, ele gastava meu salário na época com Petshop para seus "filhos" de quatro patas. Andava em seu carrão de 3 letras, como ele chamava, importado pois o fabricado em Santa Catarina, segundo Ricardo, não prestava. Vinhos dos mais caros, cervejas feitas apenas para ele por um produtor aqui em Pinhais, mansão em um condomínio de luxo que quando - as poucas vezes que lá fui - me deixavam com vergonha de usar um sapato com o solado tão duro quanto o meu.

Sua cozinha, tinha a área umas 3 vezes maior que minha casa. Eram 4 cachorros, 2 São Bernardos, 1 Pastor Alemão e um Dog Alemão - ambos lindos, fedidos e caros de manter. Os 2 São Bernardos tinham até um cuidador para dar banho nos dias mais quentes apenas para eles se refrescarem. Quase me candidatei a vaga, ele ganhava mais que eu - com faculdade - mas desisti pois odeio cachorros.

Sim, Ricardo tinha tudo. Tudo que um homem poderia querer. Eram jantares, eventos, mulheres cada uma mais linda que a outra, 2 carros na garagem, um de 3 letrinhas e outro, elétrico para dizer que tinha, acho que nunca usou.

Duas funcionárias, indicação de sua mãe: uma apenas para cozinhar, sempre, o que ele quisesse. Ela fazia compras, cozinhava doces, salgados e ajudava quando recebia amigos, uma coisa não posso negar, Ricardo fazia um churrasco que era pior apenas que o meu, mas a outra funcionária cuidava da casa, suas roupas ou seja, ele era realmente feliz. Sim, desde que conheço Ricardo, nunca, em segundo algum, o vi chorando... Sequer lembro de tê-lo visto sem um sorriso estampado, unhas bem feitas, cabelo sempre cortado, ternos e roupas das grifes mais famosas.

Um dia, Soraia, a sua empregada que cuidava da casa me ligou. Não porque éramos amigos, como já comentei, mas para minha surpresa, em seu celular de ultima geração, meu contato aparecia com um @meu nome, e assim, ficava em primeiro lugar na sua agenda. Ela chorava, mas estava tentando se conter. 

Ela me disse: ele está deitado aqui, no chão do banheiro... Não se mexe... A boca está toda cheia de espuma, seus pés e mãos estão roxos. O senhor poderia vir para cá? 

Aquilo me pegou de surpresa, pelas características, eu já poderia imaginar. Liguei então para o doutor Carlos, amigo em comum, pedi que ele fosse com a máxima urgência para a casa de Ricardo. Liguei na portaria, eu conhecia os "sangue-bom", pedi para não deixarem ninguém entrar ou sair na casa do Ricardo a não ser o dr. Carlos e eu. Eu morava longe, estava mais ou menos no caminho quando Carlos me ligou e disse que eu deveria acionar a polícia pois a situação era complicada. Novamente, eu que nem era tão amigo assim, liguei para um amigo que tinha um amigo e assim conseguimos um terceiro amigo que era amigo de um investigador "sangue-bom" que rumou para lá com um amigo delegado pois a situação era mesmo complicada.

Chegando lá, estavam o investigador, o delegado, dr. Carlos e os legistas do IML. Ricardo tinha exagerado na dose de algo que sequer suspeitávamos. TInha exagerado uma única vez... E foi o suficiente. Ricardo exagerou naquilo que nunca poderia ter sequer experimentado qualquer época da sua vida. 

Ricardo, antes do ocorrido e para meu desespero, deixou uma mensagem programada para mim em seu email, o qual recebi logo depois de chegar em sua casa e vê-lo morto, esticado no banheiro.

Na mensagem, dizia assim:

"Amigo,

Se receber essa mensagem, tudo deu errado. Hoje encontrei com o único amor que tive, que tenho, que carrego comigo, mas ela estava com seu verdadeiro amor e confesso, não pude aguentar. Eu sempre tudo que quis, sempre tudo que não quis, sempre pude comprar qualquer coisa, mas não comprei e nunca pude ter o conforto que meu coração queria. Desejo que Nicole seja feliz como ela puder/quiser ser, para mim chega. Amei demais, mas aquelas mãos dadas foram forte demais para mim.

Amigo, um abraço, que nunca lembro de ter te dado.

Amigo, cuida de tudo, a senha do meu cofre é xxxx e você terá dinheiro para pagar tudo e o que sobrar é seu...

Ah, ligue para o Diego e peça para ele cuidar de tudo junto com você, ele tem as instruções do que fazer.

Amigo, seja feliz, pois eu nunca fui mesmo com tudo que tive."

Terminei de ler a mensagem, esperei que tudo fosse feito como manda a lei... Sentei, chorei por algumas horas, e então, liguei para Diego. Diego atendeu, perguntou quem era, disse meu nome e ele me respondeu: venha a esse endereço, já sei o que aconteceu. Tenho alguns papeis para você assinar...

Fechei a casa, que foi lacrada pela perícia logo depois, entrei no carro, mas não fui ao endereço. Não, fui para minha casa, liguei para todos que amo, disse que os amo, pedi que nunca me abandonem. Fui ao bar, tomei a melhor cerveja em homenagem ao amigo que nunca souber ter com tamanha intensidade. 

Vá Ricardo, que a morte aquiete o sofrimento de seu coração! 

Vá Ricardo, você foi, Nicole ficou, e a vida segue!!!

sábado, 1 de maio de 2021

Aquele do "Os Causos contam..."

 Não existem limites para os sonhos, não é mesmo! Patrícia nasceu e cresceu sonhadora. Olhava as fotos nas revistas de adolescentes e queria ser como aquelas meninas, sempre muito lindas, magras, olhos sempre claros, essas coisas. Mas, ela talvez não tenha tido a mesma sorte ou a vida proporcionou a ela sonhos diferentes. Mas, uma coisa ela tinha: uma beleza tão rara no coração, que qualquer fachada externa esconderia como ela era maravilhosa. Quem vê cara, não vê coração.

Desde pequena sua vida foi sofrida. Perdeu a mãe em um acidente de moto aos 4 anos. O pai, alcóolatra, fez de tudo com ela, mas por sorte, nunca abusou dela. Ele bebia, ficava violento, mas nunca sequer encostou um dedo nela, tinha ou medo ou respeito. Sim, Patrícia era uma mulher forte e sempre, desde criança aprendeu a lidar com o vício do pai, que teve que enterrar aos 12 anos. Foi quando foi morar com uma tia, a Zuleica.

E, foi com sua tia Zuleica que Patrícia teve a certeza que capa de revista, nunca seria. Quer dizer, acabou sendo capa, mas não de uma revista de adolescentes, mas sim de um jornal popular da cidade onde morava. Já nos primeiros dias as tarefas se acumularam. Patrícia tinha que lavar, passar, limpar, e sequer pode seguir seus estudos. A menina que queria ser enfermeira e ajudar outras pessoas, logo se tornou uma espécie de escrava. Sua tia dizia, se quiser comer, tem que pagar pela comida. Quer brincar, arrume outro lugar para ficar. Patrícia estava perdida, desamparada, abandonada!

Mas infelizmente, Zuleica tinha o mesmo problema do seu irmão falecido: bebia. E bebia demais. Inclusive, era famosa no bairro por conta das bebedeiras e pelo que mais aprontava. Ela sempre foi uma espécie de alegria da rapaziada, pois como não trabalhava, trocava favores sexuais pelo que precisava - comida e não foram poucas vezes, dinheiro.

Logo Patrícia descobriria esse lado de sua tia. Foi numa quinta-feira, era mais ou menos umas 3 da tarde de um dia muito quente, Patrícia estava no tanque, lavando uma montanha de roupas quando Zuleica chegou, acompanhada de dois rapazes - apontou Patrícia para os dois e disse que queria uma parte agora e a outra a hora que eles fossem embora. Patrícia tinha acabado de completar 14 anos. 

Ela conheceu uma parte da vida que ninguém merece conhecer. A dor, o despreso, a vergonha - logo estava falada nas ruas. Foram várias as vezes que sua tia proporcionou a ela tamanha dor, tamanha humilhação. E nunca dessa, Patrícia engravidou. 

Andava pouco pelas ruas e quando fazia, era apontada por todos, do mais hipócrita aos responsáveis, que, como de costume, estavam sempre soltos, prontos para fazer o mal a mais alguém. Numa dessas saídas, conheceu Arnaldo, um pastor de uma igreja evangélica local, aquelas que gritam bastante como se deus fosse surdo. Sim, o deus de Patrícia se mostrava mais surdo do que ela queria que fosse. Conversaram um pouco, o pastor se mostrou preocupado e também muito disposto a ajudar. Nesta noite, o pastor e alguns fiéis foram até a acasa de Patrícia. O pastor explicou para Zuleica que levaria a menina, pois ele queria que ela tivesse aquele filho, fruto de um estupro, e que ele cuidaria dela como uma filha. Zuleica, que nunca quis saber da sobrinha, apenas disse: vai tarde!

Na casa do pastor, os primeiros dias pareciam dias de novelas. Mas logo começaram os problemas. Um dia, a esposa do pastor saiu para ir na cidade mais próxima, e assim, Patrícia descobriu porque o pastor queria tanto "ajudar" ela. Os ferimentos levaram dias para cicatrizar.

Patrícia, que já havia desistido de sonhar, chorava.

Um dia, acordou com fortes dores. A esposa do pastor, essa sim uma mulher boa para Patrícia, colocou ela no carro mas não sem antes proteger o banco com um plástico, e levou ela até o hospital local. Mas chegando lá, o ciclo da vida se fez presente.

Patrícia deu a luz a uma linda menina, fruto de um estupro, quiçá coletivo. Mais ou menos 1 hora depois, o sangramento aumentou, Patrícia foi ficando cada instante mais fraca, até que o monitor cardíaco passou a emitir um som contínuo. Os médicos fizeram o que puderam, mas ela se foi. Junto com os sonhos que já tinha ido, quem sabe Patrícia se encontra com eles em outro lugar melhor.

Sua filha? Vai saber, no interior, naquela época, mãe que morria e filho não tinha pai, tadinho do bebê...

Assim, a história de uma menina sonhadora acabou. Acabou num pesadelo...


sexta-feira, 30 de abril de 2021

Aquele do "Os causos contam..."

 Não é fácil agradar todo mundo. Naquela sexta-feira, Antonio acordou cedo como sempre fazia. Fez um café, levou para sua amada mas nesta sexta-feira, ela sequer disse obrigado. Virou para o lado e continuou dormindo. Ele, deixou o café, tentou dar um beijo de tchau, mas nem isso teve êxito. Logo pensou que talvez ela não estivesse bem, resolveu deixar ela quieta no canto dela. Em 18 anos de casamento era a primeira vez que isso acontecia. Em aproximadamente 6.570 dias, este era o primeiro em que isso ocorria! Estranho, mas Antonio sempre foi de respeitar mais do que exigir...

Saiu cedo também, seu ônibus era de hora em hora e se ele perdesse aquele das 5h30 da manhã, que o motora não era gente boa e não esperava sequer 1 segundo de acordo com o relógio dele, chegaria atrasado no serviço. De boa índole, entrou no ônibus, cumprimentou o motorista que respondeu com um balançar afirmativo de cabeça, disse bom dia também a alguns poucos passageiros rotineiros que responderam, mas ao cobrador, foi além, esboçou um sorriso e após o bom dia, arriscou um como vai! Ufa, agora recebeu um Bem e você?

A viagem transcorria normalmente, todos os passageiros já tinha dado um jeitinho de esconder telefones, dinheiro e o que mais quisessem que não fosse roubado... Alguns assim como Antonio já deixavam 50 reais no bolso, assim o "assalto" seria mais rápido com menos risco de levar um tiro a esmo...

Ufa, pensou ele ao descer do ônibus, hoje não fomos assaltados. Na ultima semana tinha sido um assaldo na terça-feira e outro na sexta-feira, sempre no mesmo ponto e pelos mesmos homens que não tiveram chances na vida. Talvez, num próximo até Antonio, bobo como é, arrisque um "bom dia, como vão?"

Seu ônibus o deixava em frente a empresa onde ele era almoxarife. Uma empresa familiar, pagava pouco mas garantia o emprego por mais de 30 anos. Quase todos esses nessa mesma rotina. Chegava, cumprimentava o guarda, marcava seu ponto, dizia um oi respeitoso à Laura, mulher que fazia a vaga de copeira - ela sempre ofertava um cafezinho fresco - que ele insistentemente negava, achava injusto tomar um café pago pela empresa que já lhe pagava salário e benefícios os quais, onde mais ele teria?

Até chegar no fundo da fábrica de suportes de reatores de iluminação pública, lugar um pouco insalubre por conta das máquinas de soldas e tanques de galvanização, seu ambiente de trabalho era super organizado e limpo, pois ele mesmo o mantia assim. Antonio achava que passar 8h48 trabalhando no local lhe dava o direito e trazia a obrigação de manter limpo e organizado.

Antonio então, até chegar em "sua sala" passou por muitos funcionários e para cada um deles dizia bom dia, muitos ignoravam outros poucos respondiam. Em seu almoxarifado, ele abria sua mochila, dela tirava um sanduíche com pão caseiro, uma fatia de mortadela e uma fina camada de manteiga, pois para ele, margarina era lubrificante de máquina... Deixava em cima da mesa, coberto pelo pano de prato com um desenho do galo, que Antonio chamava de Zé Carijó, e com quem, ao passar das horas do dia, até conversava um pouco.

Retirava também de sua mochila uma garrafa térmica cheia com o melhor café que ele sabia fazer e que não tinha pego na firma, enchia uma xícara e saia, ia lá pra fora, num cantinho que talvez nem os donos da empresa soubessem que existia e lá, com chuva ou sol, tomava seu café fumando um bom cigarrinho que comprava sempre "original". Eu fumo pouco, dizia ela, então não vou comprar pirata...

Mas nesse dia algo inesperado aconteceu. Bizarro!

Antonio mal tinha dado a segunda tragada e o primeiro gole no café quando foi surpreendido justamente pelos donos da empresa, pai e filho que estavam desbravando o terreno e onde justamente Antonio fumava escondido. No primeiro, Antonio pensou, droga, me ferrei. Sim e se ferrou mesmo, 30 anos de casa, trabalhando 1/3 do seu dia, Antonio levou a primeira e única advertência de sua vida. Advertência dada por escrito, como disse o chefe do RH, precisamos fazer isso para que sirva de exemplo. 

Sim, para que sirva de exemplo. 30 anos fazendo o certo, 3 minutos fazendo algo que nem é errado, mas que assim, serviria de exemplo. Triste, terminou seu turno. Ao chegar em casa, sua esposa estava de malas prontas. Mas, que dia foi esse, perguntou ele em voz alta?

Ela não se deu ao trabalho de conversar, apenas iniciou um monólogo no qual disse estar infeliz. Sabe, ela acusou Antonio de não ter ambição, de não querer mudar, e bla, bla, bla... Só ele sabe o  inferno que foi. Então, Ediclélia, pegou sua mala, fez questão de dizer que iria para sua mãe mas que Antonio nem deveria perder tempo em pensar em ir atrás. Ele, bobo e respeitador, mais uma vez fez isso.

Antonio então, passou a noite toda acordado. Tomava um café, fumava um cigarrinho, as horas foram passando. Na manhã seguinte, perdeu seu ônibus das 5h30, talvez já não entendesse que o motivo para ser feliz deveria vim dele mesmo e não dos outros.

Chegou na firma, fez como de costume mas hoje, aceitou o cafezinho da copeira. E ao invés de ir para seu local de 30 anos de trabalho, ele rumou ao RH. Chegando lá, com lágrimas nos olhos, pediu para que pudesse ser feito um acordo. Disseram que não dava, pois a empresa estava sem dinheiro para isso.

Ele então pediu férias, pois há mais de 3 anos não tirava. Mais uma vez disseram não.

Em 24 horas sua vida havia virado de cabeça para baixo. Ele que sempre quis agradar a todos, hoje comia um prato de comida frio no almoço, pois sem vontade, não encontrava seu norte. O dia se arrastou e nesse sábado, ele nem varreu seu almoxarifado.

As 14h30, hora que ele encerrava seu expediente de sábado, pegou suas coisas e foi ao ponto de ônibus que deveria chegar às 15h15. O ônibus chegou mas, Antonio, que sempre foi bom e quis ajudar e agradar a todos, foi atingido em cheio por um caminhão desgovernado, que havia perdido os freios. Morreu instantaneamente, sem qualquer chance de dizer adeus a qualquer alma que fosse.

Antonio nunca soube, mas naquela sexta-feira, realmente não agradou quase ninguém! Todos estavam mais preocupados com seu umbigo.

Seu ex-esposa, nem ao enterro foi, mas ainda assim, recebeu direitinho todos os dinheiros do acerto da firma e dos mais de 3 seguros que Antonio, mesmo sem ser rico, havia feito em nome dela.

Antonio que sempre quis agradar, acabou por agradar alguém que conseguiu simplesmente lhe destruir com uma ação!

Quantos Antonios existem por aí?

Talvez muitos menos do que os que não estão nem aí para os outro. A vida é assim!!!

quinta-feira, 29 de abril de 2021

Aquele do "Os causos contam..."

 Você que está lendo este texto agora, que é escrito sem objetivos maiores mas que busca demonstrar os causos que acontecem a cada segundo e nem sequer nos damos contas já amou? Já sentiu estar amando mesmo sem saber se isso é realmente amor ou apenas aquela sensação de bem estar, que faz as mãos ficarem suadas, o coração palpitar que tudo isso gera aquela outra sensação de querer mais e mais de todas as sensações?

Você já teve aquela sensação de que gostaria de estar em qualquer lugar desde que fosse com aquela pessoa especial que te causa sentimentos e emoções tão especialmente particulares?

Hum, então você é exatamente como Paulo. Sim, Paulo redescobriu a vida depois de uma longa tragetória. Ele passou muitos anos num relacionamente em que acreditava ter tudo o que já foi falado e mais, fazia muito para isso. Paulo abriu mão de muitos amigos, Paulo reaprendeu a dirigir, Paulo isso, Paulo aquilo. Paulo inclusive achava que sua amada era tão especial que não poderiam existir outras. 

Um dia, Paulo descobriu através da dor que, não existe qualquer pessoa no mundo insubstituível. Paulo até sofreu, chorou, caiu. Mas a hora que se levantou entendeu completamento o sentido da palavra substituível E é isso mesmo que ele se permitiu fazer.

E agora, Paulo faz exatamente o que sempre fez: se dedica, se doa, faz tudo que pode e as vezes o que nem pode pois Paulo, redescobrir como é bom ser amado e amar. Mas agora, Paulo fez algo diferente, aprendeu com suas dores e seu sofrimento que antes de amar, precisa se amar. Só quando se tem amor próprio é que se pode doar, que se pode decidir amar outro alguém.

Paulo redescobrir o gostinho das mãos tremendo, dos lábios que quando se encostam fazem as pernas tremulares, das mãos que se tocam, entrelaçam os dedos e parecem que mesmo com o suor, nunca mais querem se largar. Paulo decidiu se permitir sofrer novamente pois quem ama, cedo ou tarde, vai sofrer.

Sim, Paulo se permitiu fazer o que sempre é feito por milhares de apaixonados por aí, se permitiu AMAR novamente.

Paulo corta seu cabelo, faz sua barba, executa seu trabalho com a maior atenção... Se Paulo vai cair novamente? Só o tempo dirá, mas por hora, ele está se permitindo fazer uma das 7 maravilhas da vida, que é Amar.

Paulo, Paulo, se eu pudesse te dar um conselho, eu diria para você usar protetor solar, mas como protetor solar é uma das invenções para nos condicionar, eu vou dar outro conselho ao Paulo: mergulha fundo nesse amor, man, busque sempre sua felicidade, mesmo que ela esteja escondidinha num aperto de mão, num beijo rapidinho ou, numa ligação!

Paulo, ogulho de você, meu garoto!!! hehehe


quarta-feira, 28 de abril de 2021

Aquele do "Os causos contam..."

 Não é sempre que acontece, mas infelizmente para Oscar as coisas estavam começando a entrar naquela reta que, por mais que seja reta, é uma diagonal que segue para o eixo 0 no gráfico. Sim, analisando a vida, podemos descrevê-la como algumas retas: nascemos no 0, partimos de forma ascendente para algum número aleatório, uns vão para o 100, outros para o 1000 e outros apenas um valor para "y"... e nesta a gente vive a maior parte do tempo até que mamãe natureza, se mostra presente e faz com que nossa reta estável até então, passe para uma descendente. Ou seja, nascemos, crescemos e vivemos e entramos na descida rumo a morte!

Não existem fórmulas para isso. A matemática jamais explicaria. O que interfere nessas retas são os ambientes em que vivemos e coexistimos, nossos hábitos, padrões comportamentais e demais fatores psico-sócio-culturais. Profundo né!

Fato é que, sempre haverá o dia em que vamos nos despedir da vida. Ao meu ver, fecharemos nossos olhos e num instante ainda com alguma reação cerebral teremos alguns espasmos e logo depois, para que morreu, acabou. A família pode orar, chorar, pedir, gritar - não ha volta. Não há como reverter isso e é até bom, viver também cansa!

Fato é que Oscar ontem, tinha que ter feito algo que não poderá mais fazer. Ele tinha que ter escrito seu texto, colocado no ar e olhado para si mesmo no espelho e ter dito, nossa, mais um que eu ainda tive capacidade de produzir. Ou seja, teria ele cumprido sua missão na terra, a de fazer o que sabe fazer melhor. Ele até tem outras qualidades, mas essa ele faz com maestria, mesmo que seja para ele a alguns poucos que dedicam tempo para ler.

Mas afinal, o que teria acontecido com o Oscar? Esquecimento? Preguiça? Falha na memória? Os deuses estão loucos? De todas as perguntas a ultima é a única que ele pode responder um não muito sonoro e com letras maiúsculas. NÃO! E para ele é simples, mesmo nadando contra a corrente, ele não consegue acreditar em deus, em deuses, na tríade ou em qualquer outro ser para ele inanimado e punitivo o qual ao invés de ajudar, mandaria pragas para punir os réles mortais pecadores.

Porém, para as outra perguntas, um sim tímido. A idade mostra que cobra um bom preço e esse preço está íntimamente interligado a qualidade de vida. Ouvimos pior, exergamos pior, começam as dores pelo corpo, o plano de saúde fica cada vez mais caro, a cestinha de remédios passa a ser ma caixa e essa caixa vai aumentando e um dia, virará um caixão!

Sim, ele por conta dos compromissos, objetivos e claro, da falha da memória não fez o que deveria ter feito e nunca mais poderá fazê-lo... Pois, um instante se não vivido e com intensidade, nucna mais voltará a ser um instante. Nunca!

A vida é medida em segundos, minutos, dias, meses, anos... Mas ao final, você terá a sensação de que ela foi muito curta e realmente foi. Talvez aí nasça o desespero que a morte causa. Ninguém quer morrer mas todos morreremos, cedo ou tarde. Uns, aceleram no "corredor" e, ops, um motorista desatente tira a vida do motoboy. Outros, saem para um estrada, aceleram até o limite e ai, meu irmão, até uma mosca vira pedra e arregaça uma cabeça. Muitos reagem ao assalto, outros decidem disputar com policiais, tem os doentes, os obesos os loucos e toda sorte de gente que parece mais procurar a morte.

Oscar, por sua vez, não pensa nisso. Não pensava!

Quando a idade chegou, tratou de começar a instruir os filhos a respeito disso que, ninguém quer, mas acontecerá. Passou a se cuidar mais, se antes eram 180mk/h hoje, ah, hoje é 110km/h no máximo ou 120 numa ultrapassagem seguro e cautelosa.

Ontem, ele esqueceu e se pune muito por isso. Hoje, pensa no que deveria ter feito ontem e assim segue. Promete nunca mais esquecer e se ele esquecer a promessa que fez?

Lembre-se, todos vão chegar no ponto de virada, todos vão chegar no ponto em que a linha começa a apontar para baixo, uns mais cedo, outros mais tarde. Oscar inclusive esses dias, observava seu pai, sempre um modelo a ser seguido e em um momento de forte emoção percebeu - e chorou muito - que uma hora outra, o pai se vai, a mãe se vai, e nesse dia, bastará apenas se despedir e torcer que tudo fique bem!


sexta-feira, 23 de abril de 2021

Aquele do "Os causos contam..."

 Ele não era um cara ruim, apenas não tinha jeito com as mulheres. Desde pequeno ele carregava consigo alguns complexos e os anos foram implacáveis para ele. Parece que a cada aniversário, tudo ficava um pouco pior. Aos poucos a natureza fez a parte dela, seus avós partiram, logo seus pais partiram, seus filhos frutos de relações superficiais já estavam cuidando de suas vidas, os poucos amigos, ah esses poucos amigos já há anos sequer ligavam e ele, muito menos. 

A maior dificuldade de José Afonso era justamente querer ser parte de algo que ele nunca soube o que era fazer parte. Na família ele era o que contava as piadas mais se graça. Nos jantares de família, chegava a ir comer em outro ambiente pois não sabia sequer o que falar ou como agir na frente dos seus. Na escola, andava pelo pátio, olhando ao chão como se procurasse um buraco onde se enterrar e viver sozinho. No trabalho, dizia bom dia, fazia a sua parte e ia embora. E claro, sempre foi um impeditivo para seu crescimento.

Hoje, vive quase que como um ermitão. Um eremita da cidade de concreto e aço, ornada com pedaços de asfalto e alguns poucos pontos de natureza não morta, um pouco verde. Algumas flores.. Ele, naquele apartamento de paredes tão retas quando a vida deveria ser, uma cortina velha e tão rasgada quanto as decisões que ele tomou no decorrer e, numa mesinha, uma garrafa de Jack Daniels, um maço de Malboro vermelho, um copo e cinzas, muitas cinzas.

Porém, ele sabe que parte disso acontece pelas escolhas que ele fez. Estudado, curioso e capaz, escolheu viver na reclusão. Se contenta com um pouco do muito que poderia ter, gosta do saber do feito por ele mesmo à coisas prontas e sua maior felicidade é ver o sorriso de outrem quando dele, recebe algo em troca. Aliás, em troca não, pois José Afonso nunca faz algo em troca, ele sempre faz pelos demais.

Enfim, ele é apenas um numero qualquer, num lugar qualquer de um planeta que começa a agonizar. Sim, ele não significa muita coisa a não ser para àqueles que dele recebem um bem qualquer. Fará falta alguma? A saber, mas isso, só quando ele finalmente se for.

E, num sábado qualquer, por volta das 19h30, horário em que insistiu para que fosse entregue sua pizza de calabreza acebolada, ele se senta em frente a mesinha, hoje resolveu inovar e sentou no chão, pernas cruzadas como os antigos diziam - pernas de índio - hoje não se pode mais falar dessa forma pois ofende os índios, e ali, em frente a mesinha, morde um pedaço de sua pizza, toma mais um gole de Jack Daniels e vez outra, traga um Malboro. 

Para ele a solidão é uma condição, não um estado. Não percebe a diferença entre estar só e ser só. Não quer, por conta própria mudar tal situação. E não sente a menor falta de muita coisa que poucas pessoas conseguiriam não sentir falta.

Afinal, José Afonso é apenas um número e quantos outros números como esse podem existir nesse mundão afora?


quinta-feira, 22 de abril de 2021

Aquele do "Os causos contam..."

 Não, senhores e senhoras, não é fácil ser humano nos dias atuais. É preciso sim muito cuidado ao falar e mais ainda, muito mais cuidado ao pensar. Vivemos uma fase de intensa transformação social na qual, sequer pensar em algo já pode ser considerado algo ruim, algo em desacordo. O cancelamento e tudo mais são medos que vivenciamos hoje em dia.

Não, não demorou muito e eu ouvia no app de música um som que, talvez aos meus idos 16, 17 anos eu ouvia com certa frequência. Sim, mas naquela época era num CD, que insistia em dar erro ao girar o carrosel mesmo sendo uma aparelho novo. É, existiu uma época em que as coisas não funcionavam direito, mesmo sendo novas. Hoje, isso nem existe mais, nem CD, nem aparelhos de som dedicados a isso, hoje é tudo app, caixinha bluetooth e coisas assim.

Não, esse não é um texto sobre passado (é também), nem sobre tecnologia muito menos sobre alguém em específico. Mas é sim uma história, nomes trocados, fatos um tanto distorcidos afinal, é uma leitura e não uma narrativa.

Não, os personagens não coexistem mais. E ponto, a vida é assim!

Não, não é impressão, mas hoje todas as frases começaram com não!

Não mesmo, não era para ser do jeito foi. Pelo menos era o que ele imaginava. Ele, quando aparecer é uma pessoa comum, que sempre buscou fazer o bem para as pessoas. Talvez mal compreendido, talvez nunca entendido e talvez, mas um dos que aqui vieram sem saber ao certo o porque e durante sua estada nunca tenha compreendido o porque. Um personagem que facilmente ilustraria um Romance de Nelson Rodrigues, por sua irrelevância social e por sua curta estada.

Não, senhores e senhoras, ele nunca fez nada de "especial", como ele mesmo julgava. Ajudava sempre, dava um pouco do pouco que tinha para os pedintes, ah os pedintes... Se dedicava aos amigos, familiares, visinhos... Um dia, conversando com um amigo, ouviu uma frase que o marcou para sempre: você é trouxa!

Não, ele não era trouxa, ou melhor, não se sentia trouxa. Mas a frase bateu como um soco muito forte na boca de seu estômago. Ele, num ato de impulsividade, levantou da mesa onde estava, 2 copos de cerveja e o dele ainda cheio, algumas garrafas já eram testemunhas do grande encontro que há anos não acontecia, um prato de batata fritas, com pouco sal e sem a fedida maionese industrial... Os copos repousavam em porta-copos já molhados pelo suor que a cerveja gelada causava. Ao levantar, foi de encontro ao seu amigo, ou até então amigo, deu-lhe um abraço apertado, seguido dos famosos tapas nas costas que apenas grandes irmãos se dão... Olhou no fundo dos olhos do seu amigo e com uma simples e rápida palavra, resumiu o que seria desse segundo em diante: adeus!

Não, o trouxa nunca mais viu seu "amigo".

Não houve mais qualquer contato. Um dia, até pensou em ligar e desejar feliz aniversário, mas o amigo, já casado e com família formada, não era mais aquele amigo da cerveja, das conversas e do companheirismo, ele agora era outro homem, e é assim que deve ser.

Não, infelizmente nem mesmo os amigos podem ser eternos. Quem sabe um dia se encontrem mas isso não parece mais estar previsto. Como diria um dito popular, na vida, os amigos entram e saem como clientes em um restaurante. Uns entram, outros saem, uns voltam outros nunca mais.

Não, né, não há como descrever tudo isso senão como um ciclo. E como todo ciclo possui um alto e um baixo, tudo também terá, um alto e um baixo. Na mecânica, citamos um ciclo de um "pistão" como Ponto Máximo Superior e Ponto Máximo Inferior, que são os dois opostos. Mas, entre um e outro, tudo pode acontecer.

Não, não se engane. Sempre acontecerá. É inevitável, apenas não sabemos nem o quê, nem quem, nem quando, nem onde, nem como e nem o por que. Apenas acontecerá!

Não, hoje não são mais dois amigos. Cada qual, seguiu seu caminho!


quarta-feira, 21 de abril de 2021

Aquele do "Os causos contam..."

 Zoraide e Lauro

Estavam juntos há uns 20 anos. Eram um casal que nunca, em momento algum, deixaram de sorrir. Sim, era mãos dadas pra lá, mão na cintura para cá, iam aos eventos sociais, reuniões de família, encontro de amigos, e a marca registrada deles era sempre o sorriso. Não se desgrudavam por nada.

Certo dia, ela, acordou, se levantou como fazia de costume, ele ainda deitado, preparou um café - só que naquele dia mais forte que o habitual, parecia até ter "perdido a mão na quantidade de pó", encheu uma xícara e sem dar o bom dia matinal ao amado, pegou sua carteira de cigarros e foi ao lado de fora do apartamento pequeno e ajeitadinho ondem moravam, ficou olhando para os carros estacionados, e lá se foram 1, 2, 3, 4 cigarros... Foi a rotina do momento, tosse, gole de café, uma tragada, mais tosse, mais café e mais tragadas.

Zoraide não estava mesmo num bom dia, poderiam dizer alguns, mas no fundo ela estava no melhor dia de sua vida. Ao terminar seu quarto cigarro, juntou as bitucas, como fazia sempre de costume, assoprou o local onde estava na tentativa de ocultar as cinzas que insistiram resistir à brisa que estava no local. Era um dia lindo, talvez um sábado ou um domingo, nessa pandemia nem tem muito como saber... Os pássaros, solitários mas agindo em grupos, cantavam seus cantos solitários que se juntávam numa sinfonia... Bem-te-vis, canários-terra, tirivas... Mamãe natureza parece sempre acertar...

Ela, Zoraide então se levanta, e volta para o apartamento...

Não se passam muitos minutos, Lauro, com vestes incondizentes com o que sempre usa, sai do apartamento, segurando em uma das mãos uma mala de certo tamanho, uma mochila nas costas onde sempre carregou sua ferramenta de trabalho, e a outra mão, no rosto, como se segurando seu nariz, nitidamente secando algo que deveria lhe escorrer os olhos.

Sim, entra em seu carro, longos minutos se passam. É possível ouvir os soluços de seu choro a certa distãncia. Ele então, que há tempos não fumava, acende um cigarro, liga seu carro que está fazendo um barulho horrível, e sai... Outrora, sairia cantando pneus mas dessa vez não, saiu em linha reta, tão devagar que parecia querer mais que seu carro voltasse ou então, que algo fazia tamanha força para que sua inércia não fosse quebrada.

Ninguém sabe para onde ele foi. Ninguém nunca mais o viu ou ouvir falar. Ninguém sabe o que aconteceu entre o quarto cigarro e o primeiro cigarro dele. Apenas podemos imaginar, apenas a imaginação popular.

Sim, Zoraide ficou mais alguns dias e nunca mais foi vista, não naquele apartamento.

O casal nunca mais foi um casal. O que era apenas sorrisos tornou-se uma cena envolta de café, tosse, tragadas e choro!

O que teria acontecido? Talvez nunca nos caiba sabermos, mas é uma obrigação compreendermos que, o que quer que tenha acontecido, ficará para sempre guardado no íntimo de quem sempre estava sorrindo, mas sempre da porta para fora e para dentro, o que acontecia?

A vida é assim... O amor é assim... Um dia se vive, um dia se ama... Noutro, tudo ficará escuro e o amor que era motivo, continua a ser motivos porém, motivos para situações diferentes.

Que Lauro e Zoraide possam voltar ou estarem sorrindo, mas agora, cada qual em seu espaço!

E se ainda chorarem, que seja de alegria pela lembrança e não pela dor de ter perdido aquele grande amor que por anos, foi a inveja de tantos outros Lauros e Zoraides por aí.


segunda-feira, 19 de abril de 2021

Aquele do "Os causos contam..."

 Dias atrás, estava parado nosinaleiro, no carro ao lado uma casal conversava risonhamente, ouvia-se as gargalhadas que ecoavam do modelo com teto solar e ronco de potente, uma música mais alta se entremeiava o som do ambiente.

Nem 15 segundos haviam se passado, o sinaleiro acabará de fechar, quando as gargalhadas deram lugar a um grito ensurdecedor de uma voz doce feminina:

SEU FILHO DA PUTA! Berrou ela! Soltou o cinto de segurança, em movimentos rápidos e precisos desceu do carro e sem dizer mais nada saiu andando no meio do asfalto, como se direito tivesse de estar alí, mas decidida a arcar com as conseguências desse fato/ato.

O sinaleiro abriu, o carrão foi embora. Eu, quem estava atrás de mim, enfim, todos perpéxlos e perpléxas, abandonamos o posto, descemos e ficamos ali, observando, como se o tempo tivesse estacionado e apenas aquela moça linda e ex-sorridente tivesse vida ou algo assim.

Enfim, ela arranjou um cantinho de meio fio, sentou, passou as mãos em seu rosto, como se a secar algumas lágrimas, talvez, ou então, a vergonha que poderia lhe escorrer. Mas, ao que vimos, não foi para secar as lágrias, mas talvez, para disparar uma enxurrada de soluções, gritos e lágrimas, muitas lágrias.

A vida é injusta, né, principalmente para ela, moça, jovem e sorridente que agora, segundos depois está despedaçando em lágrimas. E sim, a vida é injusta, deus é injusto, alá é injusto pois, enquanto uma moça chora num meio fio, nenhuma das 30, 40 pessoas que estavam aqui ao meu lado, e eu me incluo nessa, fizemos nada para ajudar.

Ao que parece, deve ser choror da dor de amar. E só quem ama sabe o quanto dói o amor, que nos alimenta e nos desgraça. Que nos agride e nos afaga... Ah, como é bom amar! Mas Ah, como é ruim sofrer.

Então, ao pigarrear de uma sonhora que estava no carro ao lado, começamos a nos recompor como membros medíocres individualistas que somos, entramos no nossos carros, aguardamos o próximo sinal verde, cada um para seu lado, um egoísta buzinando e, enfim...

Me pego pensando, quem fim era e para onde foi aquela linda moça?

Os causos contam!