quinta-feira, 8 de abril de 2010

Sonho!

Gentes boas... não posso evitar de publicar o texto que uma grande amiga minha me enviou esta manhã. Ela, de uma insegurança adolescente inexplicável, ficou "meio assim" de mandar essa crônica para um amigo publicar em um diário lá de Maringá. Pode? Eu achei o texto belíssimo.

Isto posto, publico a seguir a crônica da minha amida Ana. Amiga esta que é daquelas que não se escolhe gostar. Apenas se gosta. Mesmo que os caminhos nos levem para mundos totalmente diferentes. Se gosta por gostar e se gosta para sempre.

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Sonho, por Ana Magda Guimarães

Um dia delineei juntar palavras. Cresci em meio a epístolas, no caminho das inscrições, no mundo das frases de impacto, aonde o que importava era nada mais do que utopia. O pai (único que tive por referência e não me pertencia) homem das letras, dos grandes negócios e das fusões, vida boa e mansa, corrida, mas prazerosa aos olhos de qualquer mortal. Uma ponte aérea e um fio nos atrelavam. Sentia-me amada e isso me bastava. Aquele vendaval de vida que sentia vinda deste homem pequeno, de olhos claros e carinho debelado (pois tinha uma forma nada comum de expressar o amor) era o bem que eu tanto queria e o amigo de todo o sempre. Nunca dei um passo sequer na vida sem que ele o soubesse.

Com ele aprendi a ser doação, escutar a qualquer um num desabafo, ajudar, ser a mão estendida, o sorriso largo e anistia imediata – mesmo que me custe uma dor amarga na boca do estômago e tambores batendo na cabeça como repique de escola de samba – aprendi a não ter sanha de ninguém. Ódio então, nunca soube do que se trata. Mas também aprendi a me bipartir – como os bancos dos carros que ele nomeou e tanto amou nesta vida que ainda está em curso. Ainda sopro de gente, entendi que às vezes calar é a melhor saída e em tantas outras ouvir apenas, mais sentido faz. Mesmo que não se escute absolutamente nada.

Acordei num dia 2 qualquer sem o pai confidente fiel, sem a atenção do homem por quem eu enfrentava o mundo de peito aberto e cabeça erguida. Aquele que se tornou da noite para o dia o meu demônio, o inferno particular que eu teria de administrar eternamente, arrancou-me o chão e fez do passado algo que não existiu, deixou-me desamparada. e nunca mais escutei o “Olha, liguei só pra te dar um beijo!” que eu herdei – abstruso demais de alguém entender. Fácil assim, tem hora em que a gente não quer nada que não um simples gesto de estar ali para alguém, ser a segurança, o pouco da atenção que todo mundo merece. Mas descobri outras habilidades nesse eu que hoje me compõe: temperos, negócios, aromas, panelas, conjugações e vontades. Realizei-me e me decepcionei, desenganei outrem, desaprendi, aprendi de novo e lobriguei que com vontade a gente chega longe. Nem que não aportemos em lugar algum. Nada permanece igual, mesmo coisas que não mudam jamais.

Aprendi a sentir o vento no rosto, olhar o horizonte num dia de céu azul e estrada para trás, a escutar a chuva batendo no telhado e respirar fundo aquele cheiro de terra molhada. Que saudade! Entendi que o dia passa veloz e a gente simplesmente não tem opção: deve viver como se fosse o último e dar a devida estima a cada um... Não é verdade que o tempo cura tudo. Mas a esperança da qual não largo, vem de agradecer aos céus e pedir clemência, aceitar humildemente cada penha dessa trajetória louca a qual damos o nome de vida. Resignar-se, esperar, doar-se e ser atenção pura e natural é dom de poucos. Aprendi que sentimento é coisa circunspecta e que podemos por pouco aviltar o de alguém. Aprendi a arrepender-me verdadeiramente e a perdoar. Desejar estar mais perto de Deus. Hora esta em que sou tênue e amiúde como todas as coisas deveriam ser

Um comentário:

  1. De fato Eduardo é um texto muito bonito, uma pena não ter sido publicado no diário, mas para nossa sorte ele está aqui!

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Desabafe!