segunda-feira, 19 de abril de 2010

Tapa na cara!

AS vezes a vida nos dá um tapa na cara. Daqueles que você vê as vezes em filmes, quando um dos personagens pega o outro (que está histérico, ou alienado, ou zureta) pelo colarinho e lhe dá uma bofetada: "Acorda. Se acalme".

Estava eu, belo formoso e redondo, na fila da carne do hipermercado Condor do Santa Cândida na semana passada. Fila mesmo, com umas 15 pessoas esperando e só dois caboclos (as vezes um) atendendo a patuléia sedenta por sangue e carne vermelha em promoção. Pô, Coxão Mole a R$ 8,50 vale a pena. Enfim... com paciência de Jó, me dirigi ao final da fila para esperar minha vez. Logo atrás veio uma senhora, com quase 80 anos... ou 70, não sei bem, bem vestida, cara de aposentada rica. Mais tarde um senhor, com seus 50 anos. Na minha frente, sem dar espaço para conversas, uma senhora de uns 40 anos, roupas simples e chinelo de dedo.

A senhora de trás puxou papo. Respondi, afinal não conversar com velhinhos no supermercado as 9h de uma sexta-feira é maldade. Só tem gente com mais de 50 anos no supermercado a essa hora. O papo passou pela tradicional introdução sobre o clima curitibano, mas rapidamente foi para as carnes. Falamos do preço do patinho, das maravilhas da carne de porco e pela saborosa asinha de frango. Aliás, esta a única parte da ave apreciada pela minha colega de fila. Ela, na verdade, nem gosta muito de carne. Vai mais ao mercado para aproveitar as promoções e fazer compra para as amigas mais compromissadas que não têm tempo.

Depois de longos 20 minutos (é, pior que fila de banco) chegou a vez da mulher que estava logo na minha frente. Nesta hora, como eu disso antes, apenas um açougueiro deu o ar da graça. A senhora simples pediu um pacote de recortes de costela de porco (aliás, aqui cabe um comentário. Maior golpe da Aurora. Dentro daquele pacote de um quilo e pouco só vem osso e retalhos MESMO de porco. Diria 60% osso, ou mais). Um pacote deu R$ 5 e pouco. Aí ela pediu mais um, um pouco mais leve que o anterior. Mas todos tinham peso semelhante.

Então ela desistiu do primeiro e pediu um quilo de coxa-sobrecoxa, que tava barato também (R$ 2 e pouco). Ele pesou um pacote, que deu mais ou menos o preço do anterior, afinal eram pacotes fechados. Ela pensou um pouco, perguntou o preço da linguiça e voltou atrás mais uam vez. Pediu o recorte de costela de novo.

Irritada, porém simpatica (mas aquela simpatia de velho, que por vezes é irônica) a senhora chique atrás de mim começava a bufar. Dava risadas, falava "ai meu Deus" e ficava ansiosa.

Qual era o problema da cliente da minha frente? Eu já havia percebido, o açougueiro também e o senhor que vinha atrás da véia rica também. Mas ela não, pois continuava rindo. A cliente indecisa só tinha R$ 10 e queria levar o máximo de carne possível para casa. E quando o dinheiro é contado, meus amigos, é foda.

O açougueiro tentou orientar a mulher, até correndo risco de levar uma mijada de superiores: "Leva o frango ou a linguiça. Esse de porco vem muito osso". Ela, coitada, insistiu (talvez pela vontade de comer um porquinho) e no fim levou apenas um pacote de osso de porco. Nesse meio tempo fui atendido por outro açougueiro que chegou. Lamentei com o outro atendente a vida dura de se ter apenas R$ 10 para comprar a carne da semana.

Fiz meu pedido, ajeitei as carnes e saí. Ainda pasmo, é verdade, com a cena que tinha presenciado há pouco. A aposentada rindo da coitada. Logo depois até percebi que a aposentada se deu conta da situação e tentou se redimir concordando que "A vida é dura". Mas a palavra dita, meus irmãos, foi dita.

Alguns minutos depois a ficha finalmente me caiu. Como um enorme tapa na cara. Olhei para o meu carrinho e tive vontade de chorar. Chorar de vergonha de não ter tomado uma atitude que, garanto para vocês, tomei em outras oportunidades. Ao ver no meu carrinho R$ 100 de coxão mole (duas peças grandes para fazer bifes que durariam mais de um mês no frezzer), além de um quilo de frango e outro de linguiça (1/2 dessa encomenda era do meu velho, que também quis aproveitar a promoção da carne, mas não podia e me enviou para a missão) me senti um lixo.

Durante o tempo em que testemunhei a dificuldade da mulher em adequar um quilo de porco com outro de frango no orçamento de R$ 10 até pensei em oferecer cincão para complementar o dinheiro que ela precisava. Não o fiz por medo de constrangê-la. Mas poderia ter feito isso logo depois, assim que saíssemos da muvuca. Até tentei, comprei um quilo de linguiça a mais e procurei aquela mulher pelo mercado. Em vão. Ela já havia ido embora para preparar sua mistura do meio-dia.

Agora porque me senti envergonhado? Principalmente por perceber que as vezes somos esbanjadores. Que não temos a noção da importância das coisas. Não quis dar àquela mulher um quilo de linguiça por culpa, mas sim por perceber que eu posso ajudar ao invés de jogar meu dinheiro fora em coisas inúteis. O episódio me machucou.

A desingualdade neste nosso país é ultrajante. Ao invés de eu ficar feliz por ter economizado uns tostões ao aproveitar uma promoção, fiquei envergonhado de ter gastado R$ 120 em carne, enquanto meu semelhante tinha deizão para comprar o osso de porco contado para a semana.

É foda!

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