sábado, 16 de outubro de 2010

Amanda...

Que ultrassom que nada. Ecografia? Nem pensar. Era Rodrigo, e ponto final. E como ninguém contestava, Rodrigo estava de bom tamanho para todo mundo. Nem a irmã mais velha se arriscou a sonhar que se fosse uma irmãzinha ela teria uma boneca em tamanho real só para ela. Se conformou, assim como todos, com Rodrigo.

E veio Amanda.

Para espanto geral, bater de pé e chorôrô daquele que seria o primo mais chegado, balançar de cabeça reprovando a bricandeira do destino da tia querida... veio Amanda.

Mas e Amanda? Como fica nessa história maluca de quase rejeição?

Mergulada num quartinho azul, vestindo roupinhas azuis com o nome de Rodrigo bordado e quase sendo chamada de "meu filho" pelos pais... Como ficou Amanda? Tinha corpo de Amanda, mas alma de Rodrigo? Não senhor. Amanda era Amanda. E decidiu provar para todo mundo que poderia fazer tudo o que o Rodrigo faria, mesmo sendo Amanda.

Brincou de carrinho, de chutar bola. Detestava boneca e sonhava em ganhar uma caminhonete de natal. Um dia ganhou, mas escolheu a cor do brinquedo: vermelho. Certa vez, surpreendeu a todos quando pediu uma bola de presente... uma bola cor de rosa. A família se entreolhou. Surpresa? Estranho ela, tão Rodrigo e tão azul, querer algo vermelho ou cor de rosa? Afinal, tirando a "casca" de Amanda não era o Rodrigo quem estava ali? Não. Ela só cresceu com jeito de piá, mas a alma sempre foi de Amanda.

Certo dia largou o rosa. Deixou o vermelho para trás. E virou mulher. Virou Amanda por dentro e por fora.

Mas e o Rodrigo, que fim levou? Ficou esquecido para sempre?

É claro que não. Segue bem vivo até hoje. Se antes a bola era rosa e a caminhonete era vermelha, hoje é tudo azul. O copo de café é azul. O estojo do óculos é azul. A decoração do casamento que se avizinha é toda azul. Bem daquele azul que decorou roupas e o quartinho que deu vida aos sonhos de um Rodrigo que não veio. Aliás, veio sim... mas em forma de Amanda. Azul e feliz.

(obs: texto produzido pela técnica Escrita Rápida, do método Escrita Total, do jornalista e escritor Edvaldo Pereira Lima. Ensinamentos absorvidos em um curso realizado neste fim de semana)

Um comentário:

  1. Mano, quero entender o contexto, mas o texto está sensacional! Parabéns pelo grande escritor que o meu "hulkinho" se tornou. Você enche nossas vidas de orgulho!

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