sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Nós vamos invadir sua praia

Esse é mais um texto de uma grande amiga, mas que aqui vai assinar com o nome Iaiá Garcia.

Então:

Nós vamos invadir sua praia

Hannah Arendt, filósofa política nascida na Alemanha, discorre entre outros temas na obra “A Condição Humana” sobre as características e limites das esferas pública e privada. Ela analisa nos diversos momentos da história como esses conceitos adquiriram os contornos que conhecemos hoje. É interessante quando ela fala que o homem “ascende” sua condição quando age, ou seja, no momento que sai da sua esfera privada para atuar na vida pública. Bem, fiz essa breve introdução para levantar o debate sobre o que é público e o que é privado hoje.

Esse texto não é um artigo acadêmico e nem pretende ser, é apenas uma observação. É chover no molhado falar do uso do Facebook por alguns usuários dependentes de atenção, mas é preciso. O Facebook atende diariamente milhões de pessoas que desabafam suas agruras amorosas, econômicas e sociais.

É de graça, permite mais de uma opinião e o sujeito pode ser diagnosticado de qualquer lugar. Se o cara acha que a namorada o trata mal basta um post e em seguida uma penca de amigos dizendo que sofrem do mesmo mal ou não. Resolvido. Se o cara achou a final do “Dança dos Famosos” injusta logo haverá uma dezena de intelectuais do facebook discorrendo sobre isso. E por aí vai.

Acredito realmente que o público e o privado na internet não só se misturaram como se tornaram um negócio novo. Se antes temíamos a interferência do Estado na vida privada do sujeito dizendo o que é certo ou errado, hoje toleramos que quase tudo o que nos diz respeito seja visto, remexido e julgado por pessoas que nós mesmos permitimos (e muitas vezes não conhecemos).

Dos lances amorosos até declarações escatológicas tudo é permitido nesse novo modelo de convivência. E não para aí. Chega uma hora em que até mesmo os desabafos dos outros começam a nos incomodar e então já é tarde. Pois se você não está inserido na roda de fofocas o anti-social é você porque não compartilha mais daqueles momentos.

O negócio não tem limite: se antes era possível pelo menos filtrar o que queríamos ler na internet, hoje isso não acontece. Na tentativa de atrair cada vez mais leitores as notícias adotaram uma linguagem mais cool utilizando elementos de humor e outros pra chamar a atenção. Nada contra, mas muitas vezes não cabe.

Do lado da notícia de um trágico engavetamento está a incrível revelação da gravidez de uma celebridade ou o novo vídeo que mostra o porre de um jogador de futebol. Como a própria palavra já diz a invasão acontece sem que nos demos conta. Tudo mastigadinho de forma a facilitar o clique. Não existe o “não querer” na internet. Se você faz parte disso, uma hora ou outra será obrigado a fazer concessões em nome da civilidade cibernética. Você, sujeito que busca a liberdade e se considera livre para fazer escolhas, será bombardeado com informações que não pediu e não lhe interessam, saberá que seu seguidor acabou de ir ao banheiro e que aquela sua amiga finalmente desencalhou. A vida privada agora tem outro nome.

Não sei qual é esse nome, mas acredito que uma enquete no Facebook resolve facilmente o problema. Umas três alternativas como “vida hype”, “voyeurismo cibernético” ou “janela indiscreta”. Vamos ver qual ganha.

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