domingo, 24 de junho de 2012

O arrependimento de Tereza


E não é que Fortaleza me inspirou? Será que inspirou mesmo? Sei lá. vocês é quem vão dizer. Segue uma histórinha que pincei da bela praia do Mucuripe, em Fortaleza. Entre uma lembrança e outra, muita saudade da minha amada, uma mente tortamente criativa e um pouco de tédio pós café da manhã.

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O arrependimento de Tereza

Mesma mesa, mesma cadeira, mesmo broche de jasmim. Era brega, mas além de ser herança, ela gostava. Todos os dias a rotina levava dona Tereza ao salão de café da manhã do flat onde morava, em Fortaleza, no mesmo horário. Só atrasava quando não achava seus filhos (um porta moedas e outro porta comprimidos). Aliás, isso acontecia frequentemente. Lugar sim, lugar não, ela esquecia seus fiéis companheiros. Mas nunca os perdeu. Sua simpatia – potencializada pelo incrível poder de decorar o nome de cada funcionário daquele flat – fazia com que uma verdadeira força-tarefa se criasse para encontrá-la cada vez que ele os deixava para trás. Minutos de apreensão para todo mundo, menos para ela, que sequer se dava conta do esquecimento. A idade avançada lhe pregava peças.

Descrita como simpática, observadora e generosa – gorjetas gordas e até desnecessárias, visto que um simples abrir de portas poderia se reverter um R$ 1 ou R$ 2. Certo dia Tereza (era aquela típica vózinha simpática) mudou a vida de um casal “estrangeiro” que se hospedou ali. Ela percebeu que sua experiência seria determinante para intervir e mudar o rumo de algumas histórias que, com base em seus conceitos, não iam nada bem.

No primeiro dia observou marido, mulher e filho (5 anos e pouco, um anjo em forma de guri) tomando seus cafés. O pai todo natureba, comendo mamão, melão, graviola e iogurte natural. O filho foi de ovo mexido (com pouco sal) assim que terminou uma pratada de sucrilhos. A mãe, meio desacorçoada da vida, preferiu duas colheradas de vina com molho, um ovo frito e três fatias de bacon. TRÊS FATIAS. Ela estava no limite. 

Seu termômetro emocional era bem definido pelo número de fatias de bacon que ela comia no café. Sempre foi assim. Quando não comia nada, era certo que os hormônios bons estavam em alta. O filho ganhava mais abraços, beijos e jujubas. O maridão se virava em dois para satisfazê-la. Faltavam horas no dia para a realização de tantas coisas boas. Se ela comia uma fatia, eram beijos de menos, jujuba de menos e 20% das reações durante o orgasmo noturno com o marido eram falsos.

Com duas fatias a coisa piorava ainda mais. Cortava as jujubas, reclamava que o dia estava longo demais, “inticava” com tudo em casa (do pó no armário, da roupa com pouco amaciante, da cama amarrotada) e entre um orgasmo fingido e outro, sentia nojo de como o marido bufava em seu pescoço. Se ela comia três fatias, meu amigo, a coisa estava feia. Obrigava o piá (já não era mais filhinho querido) a comer brócolis (jujuba nem por decreto), criticava o pudim de leite da empregada (tido como dos Deuses) e só dormia na mesma cama do marido por não ter um colchão extra. O achava um magro sem vida e sem graça. A coisa fedia mesmo.

No dia seguinte, após observar atentamente a família (que descobriu-se ser de Curitiba), recepcionou-os com dois “bom dias” maternais para os adultos e um bom dia ainda mais especial e doce, harmonizado com um saco de jujubas. Que criança não gosta de jujubas. No início o casal ficou surpreso. Na verdade ficaram sem ação mesmo. Retribuir com um “Bom Dia” seria o suficiente? Indecisos sobre qual atitude tomar diante de uma recepção tão calorosa retribuíram o “Bom Dia” e emendaram um “Bom apetite”. Quem disse, na verdade, foi a mulher. O marido olhou meio assustado. Nunca haviam falado assim com ninguém. Principalmente de onde vinham. Não era comum interagir nesses níveis com ninguém. Moravam havia 8 anos e só sabiam que a vizinha era uma vagabunda que gostava de lambada. Lambada em Curitiba. Só podia ser vagabunda.

Aquela recepção deu frutos já no primeiro dia, tamanha a repercussão emocional da interação. No café, o marido experimentou um sanduíche com pão não integral, com várias fatias de salame e uma camada grossa de manteiga. O piá se esbaldou num omelete e a mulher começou com uma cumbuca de açaí. Depois um ovo frito. E só duas fatias de bacon.

No dia seguinte interagiram. As saudações foram bem mais amigáveis. Mesmo horário, mesmo broche e mesma vontade de conquistar aquela família. Cardápios cada dia mais variados para a família visitante. Fatias de bacon iam rareando do cardápio. No outro dia perguntaram coisas superficiais da vida uns dos outros e assim as coisas foram acontecendo naquela semana.

 Chegaram ao momento máximo da relação daquelas pessoas desconhecidas: o piazinho achou os “filhos” de dona Tereza perdidos entre fatias de queijo branco e o bolo de fubá. O reencontro foi lindo. O piá ficou faceiro pelo sorrisão orgulhoso do pai (“Meu garoto, pensou), a mãe, a essa altura ria de tudo e já não comia mais bacon no café, deu gritinhos de emoção (lembrou uma Araponga, na verdade) e dona Tereza, além de bagunçar o cabelo da criança com um afago forte demais para um crânio pequeno de cinco anos e pouco, premiou o herói com uma nota de R$ 2. Só festa.

Outros dias vieram, mas o da despedida foi curioso. Encerraram aquele relacionamento de férias após o café da manhã mesmo. O marido começou dois ovos fritos com bacon e ainda no café, sem o menor constrangimento, abriu uma lata de cerveja. O esposa só comia salada de frutas, cereal e água de coco. Ainda por cima reclamava da comida gordurosa do marido. Quase se escondeu embaixo da mesa quando ele deixou escapulir aquele arroto implosivo que o lembrou da farra gastronômica da noite anterior. Dona Tereza fechou a cara.

O piazinho, antes educado como um lorde europeu, reinava o café inteiro. Pegava coisas das mesas de outros hóspedes sorrateiramente e os “resgatava” de mentira para cobrar o resgate. Queria que todos pagassem como fez dona Tereza. Ela, inclusive, já tinha dado dois beliscões no piá nos dias anteriores. Tudo por causa das suas traquinagens. Ele chegou a despejar um sache de sal dentro do açúcar, vejam vocês. Marido e esposa, antes fechados e educados, se acariciavam e se lambiam ainda na mesa do café. Tereza virava o rosto. Preferia olhar o mar. E se envergonhava dos monstros que criara.

Na hora do “tchau” definitivo, a mulher agarrou dona Tereza e a beijou. Na verdade foi o primeiro contato mais carnal de ambas. Prometeu voltar ao mesmo flat o mais rápido possível. Tereza fez cara de protocolo. E limpou o que restou do beijo da “amiga” com um guardanapo.  O marido também a beijou. Chamou-a de “Terê” e assim que desgrudou seu rosto suado (e piniquento pela barba por fazer) do dela, sentiu outro arroto implosivo deixar a última impressão.

O piázinho já estava na rua, dentro do taxi e xingando um casal de orientais. Eles não entendiam bulhufas do que ele dizia e nem queria quando “resgatou” um óculos de sol que sequer pertencia aos simpáticos dos olhinhos puxados e não obteve o resgate desejado. Já não aceitava menos de R$ 10. Tinha seu preço.

Ainda terminando seu café com leite, dona Tereza sentou-se e viu sair pela porta um novo casal. Mais “brasileiro” do que nunca. O cara trançava as pernas de bêbado ainda as 9h50. A mulher dava beliscões na bunda do marido, enquanto olhava com desejo para o mensageiro bonitão. Pensou: “Que putos eu criei. Devassos”. O taxi se foi. A última cena foi do piá olhando pelo vidro traseiro com cara de sacana. Ela jurava ter visto-o mostrar o dedo do meio, mas preferiu fingir que não.

Já no elevador, notou o mensageiro correndo em sua direção. Lembrou-se dos seus filhos, outra vez esquecidos. Eis, contudo, que recebeu apenas o porta comprimidos. Lembrou-se do riso sacana, viu o dedo do meio com mais clareza e sem pudor disparou – para horror de uma família da gaúchos que subiam no mesmo “carreto” do elevador: “Puta que pariu. Ladrãozinho filho da puta”.

3 comentários:

  1. Nobre Dudu... vamos ser sinceros? O DLQ começou a existir com esse post, irmão... Tá, tá, to exagerando, mas seu texto ficou sem dúvida alguma, maravilhoso... Gostei muito, foi um grande prazer lê-lo... Parabéns, irmão... adorore...

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  2. Amigo, muito bom esse seu conto! Quero continuar a ler mais contos como esse hein?

    Abraços

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  3. Me gusta mucho tu blog, espero que podamos intercambiar introducir un software gratuito de recuperación de fotos.MiniTool Power Data Recovery

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