quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A DOIS PASSOS DO PARAÍSO OU PAPO DE HOMEM


Galerinha, mais um texto do nobre Geraldo Silva.

"Se o distinto reparar bem, verá que o mundo, olhado com a devida atenção, tem mudado pouco.  Quase nada.  Nessas décadas todas em que caminho sob o sol, quis sempre crer na mudança como elemento central da historia da humanidade e, no entanto, a serenidade vinda com os anos diminuíram minha miopia e a vista do meu ponto entrega uma mesmisse assustadora.

Há tempos, antepassados meus foram cassados África à dentro, transportados Atlântico afora, escravizados nestas terras...  A polícia, a discriminação, a desigualdade social e étnica têm complementado o serviço ao qual o referido processo deu início e a Lei Áurea fez o meio de campo.  Há milênios, civilizações humanas têm, na sua maioria absoluta, destinado espaço subalterno e indigno à mulher.  Temos submetido nossas irmãs, filhas, mães e companheiras á condições degradantes que vão da desconfiança quanto a sua capacidade intelectual à violência física e simbólica, incluída aí a violência sexual.  Temos organizado o mundo à nossa maneira (coisa de macho), e imposto uma hierarquia tão imbecil quanto nefasta.

Processos civilizatórios, ditos - por nós - primitivos, atrasados,  resolveram muitíssimo melhor, questões como as diferenças de gênero, por exemplo.  Na contemporaneidade isso tem sido uma dificuldade até para as tentativas de construção de sociedades socialistas.  No Brasil, fizemos o ECA (um avanço), mas são incontáveis os infelizes que reclamam de não poderem mais "punir" infantes infratores como nos bons tempos.  Elaboramos o Estatuto do Idoso e são poucas as mentes que percebem a grandeza de se ter velhos por perto.  O Estatuto da Igualdade Racial gerou tanta discussão e quase nenhuma ação prática.  As leis nº 10.639  e  nº 11. 645 pouco têm evoluído na sua implementação sob o governo do Senhor Richa filho, mas ele... Bem, ele não respeita a educação em nenhum aspecto, nesse então...

É, de fato, tanta incompetência da nossa parte que uma pergunta emerge do fundo de nossas almas (ou o que resta delas):  somos predadores a tal ponto que não nos basta destruir a natureza do planeta, tendo de desconstruir também a natureza humana?

Gostaria, mas não consigo desistir da ideia de um outro mundo possível.  Sabedor de que os movimentos históricos são lentos e que, na longa duração, a linha do tempo se parece mais com uma reta que com uma espiral; ainda assim insisto na visão poética da mudança.  A equidade.  Ah, a equidade...  Não me venha, à moda do confeiteiro desprevenido, dizer que "o sonho acabou".  Não sabe brincar, não desce pro play!  Ou, como diria Chico Cesar: "Eu sei como pisar no coração de uma mulher. Já fui mulher, eu sei. Já fui mulher, eu sei"."

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Desabafe!