segunda-feira, 30 de março de 2020

Aquele do "COMO AQUILO DEU NISSO!"

Mais um texto do genial e nobre amigo Geraldo, que aqui, me refiro sempre como Gegê... Ele com sua atenção e sensibilidade ao que está acontecendo, descore a seguir:

COMO AQUILO DEU NISSO!

Por se entender o Império como “um e único”, se o entende também como um
continente que, sob a direção de uma elite ilustrada, deve conter a nação
brasileira – “a associação de todos os brasileiros” –, até mesmo porque tem-se
clareza da sua frágil coesão, como resultante da instituição que a fundamenta e
que, não obstante, deve ser preservada: a escravidão. Velha preocupação –
recordemos – já expressada por José Bonifácio nos idos da Independência –, “...
amalgamação muito difícil será a liga de tanto material heterogêneo, como
brancos, mulatos, pretos livres e escravos, índios, etc., em um corpo sólido e
político...” –, e que ainda permanecia, reproduzindo-se porque reproduzia os
interesses e as concepções dos grupos dominantes e dirigentes da sociedade.
Se a nação não se apresentava como um corpo uno e indiviso, e assim negava a
sua definição e revolucionária, o território do Império devia ocupar o seu lugar,
sendo a sua integridade e indivisibilidade um “dogma político”. (...)

O TEMPO SAQUAREMA. MATTOS,Ilmar Rohloff de. São Paulo, Hucitec, 1987

Acordei com a frase “Debaixo dos caracóis, os seus cabelos”, assim, diferente da canção. Receio que seja espécie de metáfora ao texto que lia, antes de dormir, sobre a construção do Estado Nacional, no Brasil do século XIX. Óbvio. Não há prudência nisso, no entanto (adoro contrariar a prudência), resolvi pensar a respeito. A rigor, a frase na minha cabeça, ao acordar era “Debaixo dos caracóis, seus cabelos jazem. Isso, convenhamos, bem pode suscitar em alguns, referências à psicodelia. Poderia ser, mas pode ser tanta coisa...

Em mim, possivelmente, em virtude da leitura a que me referi acima, me ocorreu tratar disso a partir da lógica e do antagonismo que norteou a estruturação do Estado Brasileiro no período imperial. As conturbações, ocorridas durante as Regências, por exemplo, são emblemáticas. Estudando-as minimamente, compreendesse-as facilmente como tentativas de ajuste, por parte das camadas sociais, dos grupos políticos regionais, das forças sociais enfim; no processo de organização da jovem aspirante a nação. Processo esse, de resto, caótico como não poderia deixar de ser.

Luta por pão, por liberdade, por direito de expressão, por espaço de mando...

Cada qual na sua luta e elas todas em relação, em associação por assim dizer, com a necessidade de estruturação e organização de instrumentos institucionais, administrativos, jurídicos e ideológicos do novo Estado.

A questão – e essa é a ponte possível com o mote deste “textinho” - é que nesse contexto se tentava cuidar para que a ordem escravocrata permanecesse, assim como a integridade territorial. Vale
citar ainda, a vontade presente (estranho isso), de ser moderno, ser civilizado, ser
europeu (tanto quanto possível).

Se lhes parece estranho, como a mim me parece, é porque definitivamente, a manutenção do trabalho escravo, da economia fundamentalmente agrária e latifundiária voltada à exportação, não combinam com o liberalismo (dos discursos). E nisso, diga-se, nem o liberalismo econômico cabe nessa lógica de funcionamento da economia brasileira do período (só lá?), como não têm a ver os princípios políticos liberais com a Política do Favor que não apenas organizou a estruturação dos serviços  públicos de então, como, por meio desse engenho, alçou-os à condição de participar do jogo político, com direito de votar e ser votado. Afinal era preciso haver cidadãos.

Esses completavam um quadro mínimo que justificassem ou dessem ao Regime, um ar de moderno, atual, “civilizado” Para os outros, a civilidade significava bem menos: submeterem-se às regras e normas, posto que boçais e/ou bárbaros (negros escravizados e índios), ou simplesmente alijados do processo pelo critério de renda (negros e brancos pobres/livres).

Debaixo desses caracóis, no fim e ao cabo, a repressão (violenta, especialmente nos casos de insurgências de caráter popular), foi aos poucos colocando “ordem na Casa”; a Nova Ordem, por Meio da incorporação de algumas demandas e quadros regionais, se estabeleceu; A Coroa, com o Golpe da Maioridade e por meio do sui generis mecanismo do Poder Moderador, pode capitanear o processo, alternando Conservadores e Liberais a frente do Gabinete Ministerial...

O Favor e o Compadrio funcionaram muito bem como esquema de acomodação de questões que iam da representatividade à organização do Serviço Público e até das atividades profissionais (da educação, do serviço médico, nomeação de delegados e afins). Nos latifúndios escravistas, o chicote, a força. E o Estado Nacional Brasileiro se fez, como ainda hoje é. A nação, essa é ainda possibilidade.

Os cabelos – nessa minha alegoria –, a força criadora da nação, enterrada sob os escombros da construção de um Estado que quis e quer controlar do Oiapoque ao Chuí, cobrindo apenas parte da população. A que tem voz! A nação brasileira é o Sansão, cujos cabelos jazem sob os emaranhados fios, da trama perpetrada pela visão tacanha e pela mentalidade pretensamente intelectualizada da elite econômica e política brasileira que, mesmo quando se pensa liberal, só o é até a página dois. Era e é de uma miopia capaz de fazer inveja ao Mister Magoo”. Como ele, também, recusa-se a encontrar os óculos, ou nem crê na utilidade deles, inclusive porque desconfia do oftalmologista.

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