quinta-feira, 26 de março de 2020

RECADO - (PARTE III)

Aristóteles disse! E essa assertiva já serviu pra que “verdades” se impusessem. Não é o caso aqui. Apenas uma modesta citação, uma ideia, aliás, bastante conhecida: “O homem é um animal social”. 

Eis porque, talvez, esses tempos de “Fique em casa” seja para todos nós, uma experiência desafiadora.  Muitos, na contramão, precisando justificar quão prazeroso pode ser ficar sozinho.  Porque simplesmente gostam e há até aquelas pessoas que têm necessidade de fazê-lo, vez em quando.  Há, claro quem prefira sempre, ou todo o tempo, como os há quem não se suporte a sós. 

A experiência, na verdade, não é estar só (para todo mundo), mas ficar em casa.  Logo se a pessoa não mora sozinha, significa estar com os seus e isso também é para muitos, bastante complexo.  Nessa diversidade, por óbvio, há gente para quem a dificuldade é realmente estar em casa e se sentir... em casa.

A despeito dos vários aspectos gritando por abordagem no parágrafo acima e na tentativa de fugir, tanto quanto possível, do risco de que esse último texto da série termine com aspecto de um fractal, prendamo-nos em um só.  A prudência indica tratar do elemento “espelho”.  Me sobra a torcida para que a construção que segue, da parte deste escrevinhador, não resulte rasteira por demais, nem desnecessariamente complexa, inviabilizando a parceria refletiva proposta já no primeiro da série.
Casa, para bem dizer, é uma expressão de grande amplitude semântica.  De larga possibilidade, do ponto de vista filosófico e de diversas possibilidades na perspectiva da antropologia.

Em contrapartida, ao menos a mim me parece, guarda tal simplicidade apenas comparável ao desenho que uma criança faz desde que consegue pela primeira vez, reunir e aplicar habilidades motoras para o manejo do lápis, giz de cera e que tais; além das capacidades de expressão, em forma de imagens, daquilo que no seu pensamento tem o significado da coisa e da palavra casa.

De maneira geral o desenho se compõe de alguns traços que formam o corpo, uns tracinhos na parte superior que indicam o que vem a ser a cobertura, telhado, (antigamente, se colocava, em algum ponto dessa cobertura, uma chaminé). Penso que hoje isso não ocorra.  Mas, por algum motivo, agora, como antes, em geral, há nuvens no entorno superior. Na verdade, um céu azul e, invariavelmente, um sol.  Há e havia, quem desenhasse, na parte de baixo, em frente e ao lado, um verde (jardim), os mais habilidosos, árvores e flores...  Penso que essa imagem tenha significados bastante fortes.

Profissionais da pedagogia ampliariam o olhar (e é seu dever de ofício fazê-lo), em relação à posição do desenho no papel.  Ao centro, no canto da folha (superior ou inferior).  Outros significados e leituras.  Quanto a maioria de nós, mortais comuns, as percepções mais diretas e simples nos bastam e ajudam a entender o que, para as crianças a coisa e a palavra significam.  Um lugar!
Sim, sim. Um lugar que é seguro, que é bonito, que é agradável, que é seu.  Melhor, onde a criança se sabe ela individualmente e parte de um coletivo a que denominamos família.  Antes que loucuras venham a ser construídas no meio da leitura, convém assinalar: o referido coletivo pode ser ela e mais uma pessoa, ela mais duas pessoas, ela mais algumas pessoas... Quaisquer pessoas (se me entendem). 

A isso, também as crianças de ontem e de hoje, aprendem igualmente a denominar, família.

A casa real varia em tamanho, podendo ter um cômodo, três, oito, cinquenta e cinco e sim, seria humano que todas tivessem o tamanho necessário à dignidade.  Ela varia na forma, no estilo arquitetônico, no nível de acabamento e aí também não se pode fugir do fato de que seria ideal que cada um desses aspectos pudesse ser, para todos, no nível da dignidade e... 

Bem, as discrepâncias, do ponto de vista do poder aquisitivo das pessoas e das famílias não são novidades. Porém, de volta aos desenhos, vale reparar que são meio universais, de modo que se pode inferir que a construção mental expressa nos desenhos das crianças não está relacionada à percepção real da casa onde a “pessoinha” mora.  Talvez elas desenhem uma ideia sentida.

Ah, sim, o espelho sobre o qual eu disse que trataria...  Pois muito bem! O lugar, esse no qual “quarentenamos”, sozinhos ou na companhia das outras pessoas que formam a nossa família nos reflete, naquilo que concerne à nossa aura, nosso espírito, nossas emoções e sentimentos?

 As relações estabelecidas por nós para conosco; por nós para com os outros membros e desses para com eles (cada um), deles para com cada um dos outros, nós outros incluídos, são reflexos de cada qual?  Adianto que não falo da famigerada harmonia, mas da vida em relação.  Paulo Freire, diria, em comunhão.

Antes que me esqueça, o planeta é nossa casa num sentido bastante mais amplo, como ampla é a família com a qual o coabitamos e, aqui entre nós, seria bacana que ele nos espelhasse.

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