quarta-feira, 25 de março de 2020

RECADO – (PARTE ll)


Ocorrerá de muitos de nós não estarmos nesse plano (não confundir com Terra Plana), depois que a “tempestade passar. A questão, no entanto, permanece, posto que caberá a quem quer que sobreviva, escolher seguir sendo o que era ou outra coisa. Outro ser. De outro jeito. Com outro olhar. Um que olhe e veja... “A contenteza do triste, tristezura do contente. Vozes de faca cortando, como o riso da serpente. São sons de sim, não, contudo... Pé quebrado, verso mudo. Grito no hospital da gente” (Chico Cesar).

Muito para além do juízo que se tenha feito agora, por parte de cada um dos grupos de que falei no texto anterior, quanto a natureza do evento, será imperativo (aos sobreviventes), uma tomada de decisão quanto a, o que se fará com a vida que lhes for concedido continuar vivendo.  O fato é que não haverá tempo pra pensar depois, visto que, saídos do “olho do furacão”, a lógica que norteia nossa existência, tenderá a nos impelir à correria em busca de recuperar o tempo e a dinâmica “perdidos” nessa pausa da economia e da ordem mundial.

Esse tempo, no qual as águas de Veneza estão espantosamente limpas, em que não há baladas, festas e afins.  Esses dias (sei lá quantos serão), nos quais, para alguns é possível trabalhar sem o estressante deslocamento no confuso trânsito apenas para que superiores, chefes, patrões tenham seus “colaboradores” sob suas vistas de feitores, podendo fiscalizar o uso que cada qual faz do tempo pelo qual é “pago”...  Enfim, esse momento no qual pais e mães, forçosa e alguns, penosamente estão reaprendendo a conviver com filhos dentro de casa em tempo integral.  Esse tempo deve, precisa servir para refletir sobre todas essas coisas que, sim, estão na raiz de um modo de vida, de existência muitíssimo mais letal que o dito vírus.

Reparar no ninho em algum galho de árvore no quintal, ou no jardim, ou mesmo no formato da lua, que em todas as noites da nossa existência está bem ali, Nova, Crescente, Cheia, Minguante... E a gente nunca parou pra olhar, junto com nossos filhos. Ver, da varanda, da janela ou do meio do jardim o céu com as estrelas, só pra ver e depois, novamente vê-las refletidas no olhar de quem se ama e agradecer à “dinda lua” pela luz que tornou possível tal momento, tal efeito.

Pensar no que escreveu o poeta, “...Está certo dizer que estrelas estão no olhar.de alguém que o amor te elegeu pra amar”.  Viver essas coisas, afinal, haverá de ser pedagógico.  Mais que isso, terapêutico.
Não haveremos de ter desaprendido a (con)viver com nossas crianças, mas elas, possivelmente nem tenham aprendido a coexistir conosco, de fato.  Não creio que nossa geração haja esquecido de como encontrar, no céu, as “Três Marias”.

Desconfio, no entanto, que parte significativa das crianças de hoje, sequer saibam do que se trata.  Não acredito que muitos de nós, prefiram realmente correr cotidianamente em direção ao infarto, só não vemos outra saída.  Recuso-me a aceitar, como fato, que é o dinheiro o elemento que nos define e norteia nossa passagem sob o sol, acima de todas as coisas. Arrisco dizer que as divindades (conforme a crença de tantos, excetuando-se os ateus), gastam menos tempo nos impondo castigo ou provações, do que nós próprios construindo armadilhas nas quais, por fim, caímos sem a lembrança de que são obras nossas.

Continua no próximo texto. E como diria o guarijo, “mantenha-se respirando e don´t you fuck dê mole no terceiro mundo”

Um comentário:

  1. É...vejo ali (acima) rastros de caminhos já trilhados e, ao olhá-los percebo que nenhum caminho é efetivo na busca das grandes verdades. Lindo texto! Chego a lembrar um pouco de mim...

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