terça-feira, 7 de abril de 2020

Aquele do 'HEILL (em seis quadras sem rima)"

E se ela soubesse que escolhemos?

Vi Elis!  Considerando a faixa etária média das pessoas que me estão lendo, isso não soará, de modo algum, como façanha.  Ocorre que vi e ouvi a criatura falando durante quase uma hora. E isso foi agorinha.  Foi no YouTube, relaxa. Não se trata de experiência paranormal ou coisa que o valha.

O programa televisivo era o extinto Jogo da Verdade, na tv Cultura (que ainda existe).  Foi sua última entrevista.  Em torno de duas semanas antes da sua morte (da Elis).  Maravilha revê-la desfilando toda sua verve, sua inquietação, o espírito de rebeldia, a sensibilidade e uma perspicácia, uma leitura do mundo a sua volta de causar inveja.

Discorreu ela, na ocasião, sobre sua carreira, sobre a política das gravadoras, sobre o mercado musical e seus modismos...  Falou sobre o Brasil e nossas idiossincrasias e aí, falando da loucura daqueles tempos, disse não duvidar se aparecesse por aqui “um bigodinho”...  (os dedos sobre o lábio superior, indicando a marca registrada do Adolfo).

Eram os anos finais da ditadura (que ela não viu findar), assim como não viu o crescimento da produção musical independente, que pode contar, alguns anos depois, com avanços tecnológicos e a diminuição dos custos de produção, ampliando as condições de acesso, por parte dos artistas, ao grande público.

Não pode ver e saber que Itamar, Arrigo e outros se mantiveram “livres” e produzindo marginalmente, assim como não teve o desagrado de ver que o deus mercado seguiu prostituído e prostituindo ao limite, impondo estilos, rostos (ou bundas) e que o Amilson Godoy não venceu a luta contra a precariedade da carreira dos músicos.

Elis não viveu para ver que nossa percepção de coletivo, capacidade de ação coletiva e de empatia manteve-se em níveis baixíssimos e isso, talvez esteja na raiz do que se nos impõe.  Não soube (não saberia, ainda que estivesse viva), que só assisti à entrevista trinta e nove anos depois, quando sua profecia é um fato, apenas sem o bigode.

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