segunda-feira, 6 de abril de 2020

Aquele do(a) "Ah, a Alteridade!"

Com atraso, de minha parte LG - mas não sonegado nunca, segue abaixo mais um do nobre, inspirado e ainda confinado Geraldo Silva - Gegê...


“Comecei uma piada.  O que fez todos rirem.
E não percebi que a piada era eu”


Um amigo querido, Professor Bráulio Pedroso, a quem aliás, não vejo há tempos (bem antes do isolamento social), por relaxo mesmo; na sua dissertação de mestrado estudava algo como as anedotas como instrumentos de perpetuação e aprofundamento dos preconceitos.  Esses, de que somos, concomitantemente vítimas e algozes, individual e coletivamente.  Sua pesquisa tratava dessas piadas que no Brasil, ouvimos e contamos desde os primeiros anos na escola (sobre gaúcho, preto, judeu, viado, prostituta, português, loira, mulher, polaco, sogra...)

Efetivamente, um dos nossos modos de existir (como sociedade), é a desqualificação dos “tipos” que não aceitamos.  Demonizamos, destituímos de direitos à existência ou, ao menos os invisibilizamos. 

Se não os podemos eliminar, que não tenhamos que conviver.  Assim, criamos prisões, hospícios e, de maneira menos institucionalizada (porque de difícil justificação legal), guetos sociais, territoriais...  Os manos existirem na periferia, que seja.  Querer entrar no shopping, aí não né.  As putas e travestis, veja bem, se for ali nas penumbras da noite da Getúlio...  Pretos, se puderem se manter nas construções, nas cozinhas, nas empresas terceirizada de serviços de limpeza e vigilância, ok.  Parem com isso de querer advogar, medicinar, engenheirar...

Pra funcionar é necessário renovar na nossa e na cabeça deles seu desvalor e incapacidades mil.  E fazemos isso sorrindo, ou melhor, rindo.  “É só de brincadeira”.  “Não tenho preconceito” “Tenho até um amigo que...”  Não é preconceito mesmo.  É conceito.  Autoconceito.  A questão é que na ciranda autofágica, rimos todos, uns dos outros. Rimos de todos nós.  Diminuímo-nos a todos e todos temos vergonha de ser isso a que chamamos brasileiro.  É como se estivéssemos sempre falando daqueles outros. 

Os que atrapalham e nos afastam do “ideal de civilidade”, como se dizia por aqui no século XIX.
Fazer piada das nossas desgraças pode ser “lido” como estratégia pra não deprimir, como um jeito leve de encarar a dureza da vida. 

Deve ser visto também como fuga.  Tentativa vã de fugir ao compromisso de olhar no espelho sem a autossugestão que constrói imagens irreais.  Esse nosso auto achincalhe, dizemos, deveria ser estudado pela Nasa. 

Mas por que não pelo Inpe?  Se a questão é estudos espaciais...  De minha parte, “botava” isso tudo num foguete e “levava” pra Havana só pra ver Cuba lançar.

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