terça-feira, 2 de junho de 2020

Aquele do "Não sei o que pensar, mas não irei nessa onda não!"

Sim, eu não sei o que pensar. Não sei mais o que esperar e ainda, não tenho a menor ideia do que poder dizer para as gerações futuras que um dia, por ventura, o covid-19 me permita conhecer e interagir. Não tenho clareza de datas precisas mas minha grande lição de vida sobre racismo ou respeito ao semelhante foi quando eu tinha aproximadamente uns 7 ou 8 anos de idade.

E antes que qualquer um critique a merda que falei, quero deixar claro que todos, sem qualquer tipo de exceção, um dia em algum momento da vida, compreendida entre seu nascimento e sua morte, fez alguma merda.

Como comentei, não me lembro do dia, hora, mas sei que eu morava numa casinha de madeira no Capão da Imbuia, a qual meus pais compraram com certo sacrifício e na qual, minha vozinha, dona Nair, fazia questão de estar sempre presente. Claro que isso era maravilhoso, eu gostava tanto dela que dela sinto falta até hoje. Mulher guerreira, mulher trabalhadora e se algum tiver algo contra ela, guarde para si mesmo pois a imagem que eu tenho nunca vai ser abalada por um qualquer.

Sim, estávamos pelo menos eu e ela, não lembro se havia mais gente. Eu vivia uma fase bastante tranquilo para mim, pois não me preocupava com nada a não ser, ser eu mesmo da maneira que eu queria... Um garoto de 7, 8 anos, algo assim. Ia para escola, da escola pra casa, brincava na rua, pulava a valeta de esgoto que tinha na frente. Brincávamos de pique-esconde, jogávamos futebol (eu sempre odiei, mas era com os amigos), guerra de mamona, bicicleta, enfim, a vida sempre transcorria da melhor forma possível

Eis que então, eu resolvo um dia contar uma piada sobre negros. E até então, tudo parecia muito normal, eu convivia com as pessoas e isso era normal. Mas, a grande lição aconteceu pois minha avó ouviu a piada. E mais que prontamente, do jeitinho dela, me deu um esporro daqueles de deixar qualquer idiota com cara de imbecil.

Para quem confunde ou considera apenas o que o dicionário, idiota não é a pessoa desprovida de inteligência, no meu texto eu descrevo quem não tem inteligência, como imbecil. A palavra IDiota que uso aqui é para descrever o ser que, ao viver em sociedade e em um ambiente coletivo, tem a capacidade de observar e apenas se preocupar apenas com seu umbigo ou então, com o seu ser. Assim como identidade se refere a algo sobre o ser ID, idiota refere-se a quem pensa apenas em você... OU seja, eu era um idiota contando piadinhas sobre negros, pois eu não pensava neles, não tinha a menor ideia de como isso poderia atingir alguém.

Eu, com 8 anos, não tinha qualquer tipo de discernimento sobre esse assunto, talvez até devesse ter, mas não tinha. Com 8 anos, eu não tinha muita clareza nem do que era a vida. Com 8 anos eu era um retardadinho em processo de absorção de conteúdo e foi justamente o que minha avó fez.

Depois desse episódio, não apenas eu não me lembro de ter contado uma piada sequer sobre negros, como também, passei a não rir de piadas com esse tema.

A lição foi tão dura para mim que, fico sem graça até hoje só de me lembrar desse acontecimento. Eu tinha pouca idade mas a lição foi sem dúvida alguma, uma forma de me mostrar que o mundo não seria como o mundo me cobrava ser. Ou seja, eu comecei a viver de uma forma em que eu precisava negar os demais para poder aplicar o respeito que, de forma ampla, era o mínimo que eu poderia oferecer de retorno.

Sim, eu não vou entrar nessa onda nova, até porque, eu, meus filhos e todos os que eu posso contagiar com esse respeito excessivo, eu tento contagiar. Todos os que me permitem contar o que me aconteceu eu conto, para que, sem violência, sem atos loucos e sem esse discurso de ódio, possamos juntos quem sabe mudar o mundo. Eu sei que é muita pretensão, mas eu sempre tive em mente que preciso tentar.

Não sou culpado por essa burrice que é o racismo, mas serei sempre culpado se durante minha vida, não fizer nada, mesmo que seja apenas com os meus, para que isso seja mudado.

Como diria Gabriel O Pensador:

"Como eu já disse, racismo, é burrice...

E se você é mais um burro, não me leve a mal
É hora de fazer uma lavagem cerebral
Mas isso é compromisso seu, eu não vou me meter,
Quem vai lavar a sua mente não sou eu
É você"

E fecho esse texto com esse trecho dessa linda musica do Gabriel O Pensador pois, assim como eu, aos 7, 8 anos de idade tive alguém que, de forma contundente me fez lavar a minha mente com relação a isso, quem sabe você lave a sua e leve essa mensagem aos também ou realmente precisam lavar suas mentes.

Por favor... Se externamente não somos todos iguais, somos sim, todos seres humanos...

E isso por si só já basta! Ou não, né!

#triste

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