sexta-feira, 23 de abril de 2021

Aquele do "Os causos contam..."

 Ele não era um cara ruim, apenas não tinha jeito com as mulheres. Desde pequeno ele carregava consigo alguns complexos e os anos foram implacáveis para ele. Parece que a cada aniversário, tudo ficava um pouco pior. Aos poucos a natureza fez a parte dela, seus avós partiram, logo seus pais partiram, seus filhos frutos de relações superficiais já estavam cuidando de suas vidas, os poucos amigos, ah esses poucos amigos já há anos sequer ligavam e ele, muito menos. 

A maior dificuldade de José Afonso era justamente querer ser parte de algo que ele nunca soube o que era fazer parte. Na família ele era o que contava as piadas mais se graça. Nos jantares de família, chegava a ir comer em outro ambiente pois não sabia sequer o que falar ou como agir na frente dos seus. Na escola, andava pelo pátio, olhando ao chão como se procurasse um buraco onde se enterrar e viver sozinho. No trabalho, dizia bom dia, fazia a sua parte e ia embora. E claro, sempre foi um impeditivo para seu crescimento.

Hoje, vive quase que como um ermitão. Um eremita da cidade de concreto e aço, ornada com pedaços de asfalto e alguns poucos pontos de natureza não morta, um pouco verde. Algumas flores.. Ele, naquele apartamento de paredes tão retas quando a vida deveria ser, uma cortina velha e tão rasgada quanto as decisões que ele tomou no decorrer e, numa mesinha, uma garrafa de Jack Daniels, um maço de Malboro vermelho, um copo e cinzas, muitas cinzas.

Porém, ele sabe que parte disso acontece pelas escolhas que ele fez. Estudado, curioso e capaz, escolheu viver na reclusão. Se contenta com um pouco do muito que poderia ter, gosta do saber do feito por ele mesmo à coisas prontas e sua maior felicidade é ver o sorriso de outrem quando dele, recebe algo em troca. Aliás, em troca não, pois José Afonso nunca faz algo em troca, ele sempre faz pelos demais.

Enfim, ele é apenas um numero qualquer, num lugar qualquer de um planeta que começa a agonizar. Sim, ele não significa muita coisa a não ser para àqueles que dele recebem um bem qualquer. Fará falta alguma? A saber, mas isso, só quando ele finalmente se for.

E, num sábado qualquer, por volta das 19h30, horário em que insistiu para que fosse entregue sua pizza de calabreza acebolada, ele se senta em frente a mesinha, hoje resolveu inovar e sentou no chão, pernas cruzadas como os antigos diziam - pernas de índio - hoje não se pode mais falar dessa forma pois ofende os índios, e ali, em frente a mesinha, morde um pedaço de sua pizza, toma mais um gole de Jack Daniels e vez outra, traga um Malboro. 

Para ele a solidão é uma condição, não um estado. Não percebe a diferença entre estar só e ser só. Não quer, por conta própria mudar tal situação. E não sente a menor falta de muita coisa que poucas pessoas conseguiriam não sentir falta.

Afinal, José Afonso é apenas um número e quantos outros números como esse podem existir nesse mundão afora?


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