sexta-feira, 30 de abril de 2021

Aquele do "Os causos contam..."

 Não é fácil agradar todo mundo. Naquela sexta-feira, Antonio acordou cedo como sempre fazia. Fez um café, levou para sua amada mas nesta sexta-feira, ela sequer disse obrigado. Virou para o lado e continuou dormindo. Ele, deixou o café, tentou dar um beijo de tchau, mas nem isso teve êxito. Logo pensou que talvez ela não estivesse bem, resolveu deixar ela quieta no canto dela. Em 18 anos de casamento era a primeira vez que isso acontecia. Em aproximadamente 6.570 dias, este era o primeiro em que isso ocorria! Estranho, mas Antonio sempre foi de respeitar mais do que exigir...

Saiu cedo também, seu ônibus era de hora em hora e se ele perdesse aquele das 5h30 da manhã, que o motora não era gente boa e não esperava sequer 1 segundo de acordo com o relógio dele, chegaria atrasado no serviço. De boa índole, entrou no ônibus, cumprimentou o motorista que respondeu com um balançar afirmativo de cabeça, disse bom dia também a alguns poucos passageiros rotineiros que responderam, mas ao cobrador, foi além, esboçou um sorriso e após o bom dia, arriscou um como vai! Ufa, agora recebeu um Bem e você?

A viagem transcorria normalmente, todos os passageiros já tinha dado um jeitinho de esconder telefones, dinheiro e o que mais quisessem que não fosse roubado... Alguns assim como Antonio já deixavam 50 reais no bolso, assim o "assalto" seria mais rápido com menos risco de levar um tiro a esmo...

Ufa, pensou ele ao descer do ônibus, hoje não fomos assaltados. Na ultima semana tinha sido um assaldo na terça-feira e outro na sexta-feira, sempre no mesmo ponto e pelos mesmos homens que não tiveram chances na vida. Talvez, num próximo até Antonio, bobo como é, arrisque um "bom dia, como vão?"

Seu ônibus o deixava em frente a empresa onde ele era almoxarife. Uma empresa familiar, pagava pouco mas garantia o emprego por mais de 30 anos. Quase todos esses nessa mesma rotina. Chegava, cumprimentava o guarda, marcava seu ponto, dizia um oi respeitoso à Laura, mulher que fazia a vaga de copeira - ela sempre ofertava um cafezinho fresco - que ele insistentemente negava, achava injusto tomar um café pago pela empresa que já lhe pagava salário e benefícios os quais, onde mais ele teria?

Até chegar no fundo da fábrica de suportes de reatores de iluminação pública, lugar um pouco insalubre por conta das máquinas de soldas e tanques de galvanização, seu ambiente de trabalho era super organizado e limpo, pois ele mesmo o mantia assim. Antonio achava que passar 8h48 trabalhando no local lhe dava o direito e trazia a obrigação de manter limpo e organizado.

Antonio então, até chegar em "sua sala" passou por muitos funcionários e para cada um deles dizia bom dia, muitos ignoravam outros poucos respondiam. Em seu almoxarifado, ele abria sua mochila, dela tirava um sanduíche com pão caseiro, uma fatia de mortadela e uma fina camada de manteiga, pois para ele, margarina era lubrificante de máquina... Deixava em cima da mesa, coberto pelo pano de prato com um desenho do galo, que Antonio chamava de Zé Carijó, e com quem, ao passar das horas do dia, até conversava um pouco.

Retirava também de sua mochila uma garrafa térmica cheia com o melhor café que ele sabia fazer e que não tinha pego na firma, enchia uma xícara e saia, ia lá pra fora, num cantinho que talvez nem os donos da empresa soubessem que existia e lá, com chuva ou sol, tomava seu café fumando um bom cigarrinho que comprava sempre "original". Eu fumo pouco, dizia ela, então não vou comprar pirata...

Mas nesse dia algo inesperado aconteceu. Bizarro!

Antonio mal tinha dado a segunda tragada e o primeiro gole no café quando foi surpreendido justamente pelos donos da empresa, pai e filho que estavam desbravando o terreno e onde justamente Antonio fumava escondido. No primeiro, Antonio pensou, droga, me ferrei. Sim e se ferrou mesmo, 30 anos de casa, trabalhando 1/3 do seu dia, Antonio levou a primeira e única advertência de sua vida. Advertência dada por escrito, como disse o chefe do RH, precisamos fazer isso para que sirva de exemplo. 

Sim, para que sirva de exemplo. 30 anos fazendo o certo, 3 minutos fazendo algo que nem é errado, mas que assim, serviria de exemplo. Triste, terminou seu turno. Ao chegar em casa, sua esposa estava de malas prontas. Mas, que dia foi esse, perguntou ele em voz alta?

Ela não se deu ao trabalho de conversar, apenas iniciou um monólogo no qual disse estar infeliz. Sabe, ela acusou Antonio de não ter ambição, de não querer mudar, e bla, bla, bla... Só ele sabe o  inferno que foi. Então, Ediclélia, pegou sua mala, fez questão de dizer que iria para sua mãe mas que Antonio nem deveria perder tempo em pensar em ir atrás. Ele, bobo e respeitador, mais uma vez fez isso.

Antonio então, passou a noite toda acordado. Tomava um café, fumava um cigarrinho, as horas foram passando. Na manhã seguinte, perdeu seu ônibus das 5h30, talvez já não entendesse que o motivo para ser feliz deveria vim dele mesmo e não dos outros.

Chegou na firma, fez como de costume mas hoje, aceitou o cafezinho da copeira. E ao invés de ir para seu local de 30 anos de trabalho, ele rumou ao RH. Chegando lá, com lágrimas nos olhos, pediu para que pudesse ser feito um acordo. Disseram que não dava, pois a empresa estava sem dinheiro para isso.

Ele então pediu férias, pois há mais de 3 anos não tirava. Mais uma vez disseram não.

Em 24 horas sua vida havia virado de cabeça para baixo. Ele que sempre quis agradar a todos, hoje comia um prato de comida frio no almoço, pois sem vontade, não encontrava seu norte. O dia se arrastou e nesse sábado, ele nem varreu seu almoxarifado.

As 14h30, hora que ele encerrava seu expediente de sábado, pegou suas coisas e foi ao ponto de ônibus que deveria chegar às 15h15. O ônibus chegou mas, Antonio, que sempre foi bom e quis ajudar e agradar a todos, foi atingido em cheio por um caminhão desgovernado, que havia perdido os freios. Morreu instantaneamente, sem qualquer chance de dizer adeus a qualquer alma que fosse.

Antonio nunca soube, mas naquela sexta-feira, realmente não agradou quase ninguém! Todos estavam mais preocupados com seu umbigo.

Seu ex-esposa, nem ao enterro foi, mas ainda assim, recebeu direitinho todos os dinheiros do acerto da firma e dos mais de 3 seguros que Antonio, mesmo sem ser rico, havia feito em nome dela.

Antonio que sempre quis agradar, acabou por agradar alguém que conseguiu simplesmente lhe destruir com uma ação!

Quantos Antonios existem por aí?

Talvez muitos menos do que os que não estão nem aí para os outro. A vida é assim!!!

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