quarta-feira, 21 de abril de 2021

Aquele do "Os causos contam..."

 Zoraide e Lauro

Estavam juntos há uns 20 anos. Eram um casal que nunca, em momento algum, deixaram de sorrir. Sim, era mãos dadas pra lá, mão na cintura para cá, iam aos eventos sociais, reuniões de família, encontro de amigos, e a marca registrada deles era sempre o sorriso. Não se desgrudavam por nada.

Certo dia, ela, acordou, se levantou como fazia de costume, ele ainda deitado, preparou um café - só que naquele dia mais forte que o habitual, parecia até ter "perdido a mão na quantidade de pó", encheu uma xícara e sem dar o bom dia matinal ao amado, pegou sua carteira de cigarros e foi ao lado de fora do apartamento pequeno e ajeitadinho ondem moravam, ficou olhando para os carros estacionados, e lá se foram 1, 2, 3, 4 cigarros... Foi a rotina do momento, tosse, gole de café, uma tragada, mais tosse, mais café e mais tragadas.

Zoraide não estava mesmo num bom dia, poderiam dizer alguns, mas no fundo ela estava no melhor dia de sua vida. Ao terminar seu quarto cigarro, juntou as bitucas, como fazia sempre de costume, assoprou o local onde estava na tentativa de ocultar as cinzas que insistiram resistir à brisa que estava no local. Era um dia lindo, talvez um sábado ou um domingo, nessa pandemia nem tem muito como saber... Os pássaros, solitários mas agindo em grupos, cantavam seus cantos solitários que se juntávam numa sinfonia... Bem-te-vis, canários-terra, tirivas... Mamãe natureza parece sempre acertar...

Ela, Zoraide então se levanta, e volta para o apartamento...

Não se passam muitos minutos, Lauro, com vestes incondizentes com o que sempre usa, sai do apartamento, segurando em uma das mãos uma mala de certo tamanho, uma mochila nas costas onde sempre carregou sua ferramenta de trabalho, e a outra mão, no rosto, como se segurando seu nariz, nitidamente secando algo que deveria lhe escorrer os olhos.

Sim, entra em seu carro, longos minutos se passam. É possível ouvir os soluços de seu choro a certa distãncia. Ele então, que há tempos não fumava, acende um cigarro, liga seu carro que está fazendo um barulho horrível, e sai... Outrora, sairia cantando pneus mas dessa vez não, saiu em linha reta, tão devagar que parecia querer mais que seu carro voltasse ou então, que algo fazia tamanha força para que sua inércia não fosse quebrada.

Ninguém sabe para onde ele foi. Ninguém nunca mais o viu ou ouvir falar. Ninguém sabe o que aconteceu entre o quarto cigarro e o primeiro cigarro dele. Apenas podemos imaginar, apenas a imaginação popular.

Sim, Zoraide ficou mais alguns dias e nunca mais foi vista, não naquele apartamento.

O casal nunca mais foi um casal. O que era apenas sorrisos tornou-se uma cena envolta de café, tosse, tragadas e choro!

O que teria acontecido? Talvez nunca nos caiba sabermos, mas é uma obrigação compreendermos que, o que quer que tenha acontecido, ficará para sempre guardado no íntimo de quem sempre estava sorrindo, mas sempre da porta para fora e para dentro, o que acontecia?

A vida é assim... O amor é assim... Um dia se vive, um dia se ama... Noutro, tudo ficará escuro e o amor que era motivo, continua a ser motivos porém, motivos para situações diferentes.

Que Lauro e Zoraide possam voltar ou estarem sorrindo, mas agora, cada qual em seu espaço!

E se ainda chorarem, que seja de alegria pela lembrança e não pela dor de ter perdido aquele grande amor que por anos, foi a inveja de tantos outros Lauros e Zoraides por aí.


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