terça-feira, 4 de maio de 2021

Aquele do "Os Causos contam..."

 Durante minha vida, as histórias que mais me comoviam eram justamente as que envolviam pais de família. Quando algo acontece com eles, sofrem as esposas, os filhos, alguns amigos, e por ai vai. Certo dia Alex, um pai de família, um pai de duas princesinhas lindas - puxaram a mãe graçasdeus - como diria Alex se uma cerveja pudesse estar tomando com seus amigos, levantou cedo, trocou seu pijama pela roupa que usa para trabalhar, verificou se as sacolas que evitavam que seu pé enxarcasse durante o dia se chovesse estava nos bolsos da blusa mais ou menos adaptada para andar de moto, verificou o de sempre, óleo, freios, luzes, placa e, depois de acenar para sua mulher que encontrava-se na janela da cozinha, montou sua CG e saiu para trabalhar.

Quando ela ouvia o barulho do portão rústico feito de folhas e alguns metalons seu coração ficava apertado, pois ele era motoboy e a grande maioria sabe que é uma loteria com chances reais de ganhar, ou nesse caso, perder a vida. Jessica então, foi acordar suas meninas, que deveriam ter tarefas de casa. Acordou Yasmin e Larissa, serviu a ela aqueles dois pães que sobraram de ontem - Jessica tinha um truque, ela queimava os dois no fogão usando um garfo e as meninas adoravam, comiam sem qualquer tipo de recheio.

Enquanto as meninas comiam, Jessica sentiu algo diferente em sua barriga, mas não ligou.

Já era hora de as meninas irem para a escola, Jessica então com dores na barriga ainda mais fortes, foi até a frente da casa, esperou com as meninas a van escolar e depois que elas foram para a aula, entrou e resolveu costurar, ela estava fazendo uma nova jaqueta para seu Alex, pois a dele já estava meio velha desgastada. Mede daqui, mede dali, a dor aumenta, ela vai ao banheiro.

Quando se senta no vaso, mais do que a dor, ouviu um barulho estranho, como se algo grande tivesse caído na água, e realmente havia caído. E o que ela viu infelizmente não era nada bom. Era uma bolota de sangue, do tamanha de uma bola de tenis mais ou menos... Com dores cada vez maiores, se sentindo fraca, se arrastou até o telefone, ligou para 193, pediu socorro. Infelizmente o 193 pediu para ela ligar para o 192... O 192 prontamente respondeu pedido que aguardasse que uma ambulância chegaria logo. 10 minutos se passaram, 15, 20, 30 minutos. 

Jessica já não estava mais consciente a hora que a ambulância finalmente chegou. Seu pulso era fraco, ela estava pálida como uma parede branca, não tinha forças para sequer responder as perguntas básicas que os socorristas costumam fazer. Colocaram ela na prancha, amarraram, e estavam levando ela para a ambulância quando ela inexplicavelmente segurou a mão de uma das socorristas, balcuciou algo que a socorrista precisou se abaixar para ouvir, então chamou por Clara... Quem é Clara, quem é Clara, dizia a socorrista. 

Clara logo se apresentou, a socorrista então passou o recado: cuida do Alex e das meninas e quando terminar a jaqueta, diga que fui eu que pedi.

Entraram na ambulância, partindo para o hospital mais próximo conhecido também por abatedouro pois quem lá entra dificilmente sai e assim, contrariando tudo e todos, ela saiu.

Saiu, e ao sair, encontrou sim, sem marido e filhas na porta do hospital, ele carregando algumas flores -seu dinheiro era curto - as meninas seguravam cartinhas feitas ao papai do céu. Entraram então no carro de um visinho e foram para casa.

Chegando em casa, Jessica contou para Alex que, aquele sangue que caiu no vaso era na verdade, um bebê que nenhum, nem outro sabiam que estava a caminho.

Eles se abraçaram, choraram por horas. Alex por não ter perdido sua amada, Jessica por estar viva e ter perdido alguém que ela iria amar, mas que o tempo não a permitiu.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Aquele do "Os Causos contam..."

Ricardo... Ah, grande Ricardo. Não éramos bem amigos, mas o mais próximo do que se assemelhava ser. Por minha culpa. Nasci de família humilde (pobre), sempre assisti meus pais economizando e contando se o dinheiro daria para tudo. Ricardo não, ele gastava meu salário na época com Petshop para seus "filhos" de quatro patas. Andava em seu carrão de 3 letras, como ele chamava, importado pois o fabricado em Santa Catarina, segundo Ricardo, não prestava. Vinhos dos mais caros, cervejas feitas apenas para ele por um produtor aqui em Pinhais, mansão em um condomínio de luxo que quando - as poucas vezes que lá fui - me deixavam com vergonha de usar um sapato com o solado tão duro quanto o meu.

Sua cozinha, tinha a área umas 3 vezes maior que minha casa. Eram 4 cachorros, 2 São Bernardos, 1 Pastor Alemão e um Dog Alemão - ambos lindos, fedidos e caros de manter. Os 2 São Bernardos tinham até um cuidador para dar banho nos dias mais quentes apenas para eles se refrescarem. Quase me candidatei a vaga, ele ganhava mais que eu - com faculdade - mas desisti pois odeio cachorros.

Sim, Ricardo tinha tudo. Tudo que um homem poderia querer. Eram jantares, eventos, mulheres cada uma mais linda que a outra, 2 carros na garagem, um de 3 letrinhas e outro, elétrico para dizer que tinha, acho que nunca usou.

Duas funcionárias, indicação de sua mãe: uma apenas para cozinhar, sempre, o que ele quisesse. Ela fazia compras, cozinhava doces, salgados e ajudava quando recebia amigos, uma coisa não posso negar, Ricardo fazia um churrasco que era pior apenas que o meu, mas a outra funcionária cuidava da casa, suas roupas ou seja, ele era realmente feliz. Sim, desde que conheço Ricardo, nunca, em segundo algum, o vi chorando... Sequer lembro de tê-lo visto sem um sorriso estampado, unhas bem feitas, cabelo sempre cortado, ternos e roupas das grifes mais famosas.

Um dia, Soraia, a sua empregada que cuidava da casa me ligou. Não porque éramos amigos, como já comentei, mas para minha surpresa, em seu celular de ultima geração, meu contato aparecia com um @meu nome, e assim, ficava em primeiro lugar na sua agenda. Ela chorava, mas estava tentando se conter. 

Ela me disse: ele está deitado aqui, no chão do banheiro... Não se mexe... A boca está toda cheia de espuma, seus pés e mãos estão roxos. O senhor poderia vir para cá? 

Aquilo me pegou de surpresa, pelas características, eu já poderia imaginar. Liguei então para o doutor Carlos, amigo em comum, pedi que ele fosse com a máxima urgência para a casa de Ricardo. Liguei na portaria, eu conhecia os "sangue-bom", pedi para não deixarem ninguém entrar ou sair na casa do Ricardo a não ser o dr. Carlos e eu. Eu morava longe, estava mais ou menos no caminho quando Carlos me ligou e disse que eu deveria acionar a polícia pois a situação era complicada. Novamente, eu que nem era tão amigo assim, liguei para um amigo que tinha um amigo e assim conseguimos um terceiro amigo que era amigo de um investigador "sangue-bom" que rumou para lá com um amigo delegado pois a situação era mesmo complicada.

Chegando lá, estavam o investigador, o delegado, dr. Carlos e os legistas do IML. Ricardo tinha exagerado na dose de algo que sequer suspeitávamos. TInha exagerado uma única vez... E foi o suficiente. Ricardo exagerou naquilo que nunca poderia ter sequer experimentado qualquer época da sua vida. 

Ricardo, antes do ocorrido e para meu desespero, deixou uma mensagem programada para mim em seu email, o qual recebi logo depois de chegar em sua casa e vê-lo morto, esticado no banheiro.

Na mensagem, dizia assim:

"Amigo,

Se receber essa mensagem, tudo deu errado. Hoje encontrei com o único amor que tive, que tenho, que carrego comigo, mas ela estava com seu verdadeiro amor e confesso, não pude aguentar. Eu sempre tudo que quis, sempre tudo que não quis, sempre pude comprar qualquer coisa, mas não comprei e nunca pude ter o conforto que meu coração queria. Desejo que Nicole seja feliz como ela puder/quiser ser, para mim chega. Amei demais, mas aquelas mãos dadas foram forte demais para mim.

Amigo, um abraço, que nunca lembro de ter te dado.

Amigo, cuida de tudo, a senha do meu cofre é xxxx e você terá dinheiro para pagar tudo e o que sobrar é seu...

Ah, ligue para o Diego e peça para ele cuidar de tudo junto com você, ele tem as instruções do que fazer.

Amigo, seja feliz, pois eu nunca fui mesmo com tudo que tive."

Terminei de ler a mensagem, esperei que tudo fosse feito como manda a lei... Sentei, chorei por algumas horas, e então, liguei para Diego. Diego atendeu, perguntou quem era, disse meu nome e ele me respondeu: venha a esse endereço, já sei o que aconteceu. Tenho alguns papeis para você assinar...

Fechei a casa, que foi lacrada pela perícia logo depois, entrei no carro, mas não fui ao endereço. Não, fui para minha casa, liguei para todos que amo, disse que os amo, pedi que nunca me abandonem. Fui ao bar, tomei a melhor cerveja em homenagem ao amigo que nunca souber ter com tamanha intensidade. 

Vá Ricardo, que a morte aquiete o sofrimento de seu coração! 

Vá Ricardo, você foi, Nicole ficou, e a vida segue!!!

sábado, 1 de maio de 2021

Aquele do "Os Causos contam..."

 Não existem limites para os sonhos, não é mesmo! Patrícia nasceu e cresceu sonhadora. Olhava as fotos nas revistas de adolescentes e queria ser como aquelas meninas, sempre muito lindas, magras, olhos sempre claros, essas coisas. Mas, ela talvez não tenha tido a mesma sorte ou a vida proporcionou a ela sonhos diferentes. Mas, uma coisa ela tinha: uma beleza tão rara no coração, que qualquer fachada externa esconderia como ela era maravilhosa. Quem vê cara, não vê coração.

Desde pequena sua vida foi sofrida. Perdeu a mãe em um acidente de moto aos 4 anos. O pai, alcóolatra, fez de tudo com ela, mas por sorte, nunca abusou dela. Ele bebia, ficava violento, mas nunca sequer encostou um dedo nela, tinha ou medo ou respeito. Sim, Patrícia era uma mulher forte e sempre, desde criança aprendeu a lidar com o vício do pai, que teve que enterrar aos 12 anos. Foi quando foi morar com uma tia, a Zuleica.

E, foi com sua tia Zuleica que Patrícia teve a certeza que capa de revista, nunca seria. Quer dizer, acabou sendo capa, mas não de uma revista de adolescentes, mas sim de um jornal popular da cidade onde morava. Já nos primeiros dias as tarefas se acumularam. Patrícia tinha que lavar, passar, limpar, e sequer pode seguir seus estudos. A menina que queria ser enfermeira e ajudar outras pessoas, logo se tornou uma espécie de escrava. Sua tia dizia, se quiser comer, tem que pagar pela comida. Quer brincar, arrume outro lugar para ficar. Patrícia estava perdida, desamparada, abandonada!

Mas infelizmente, Zuleica tinha o mesmo problema do seu irmão falecido: bebia. E bebia demais. Inclusive, era famosa no bairro por conta das bebedeiras e pelo que mais aprontava. Ela sempre foi uma espécie de alegria da rapaziada, pois como não trabalhava, trocava favores sexuais pelo que precisava - comida e não foram poucas vezes, dinheiro.

Logo Patrícia descobriria esse lado de sua tia. Foi numa quinta-feira, era mais ou menos umas 3 da tarde de um dia muito quente, Patrícia estava no tanque, lavando uma montanha de roupas quando Zuleica chegou, acompanhada de dois rapazes - apontou Patrícia para os dois e disse que queria uma parte agora e a outra a hora que eles fossem embora. Patrícia tinha acabado de completar 14 anos. 

Ela conheceu uma parte da vida que ninguém merece conhecer. A dor, o despreso, a vergonha - logo estava falada nas ruas. Foram várias as vezes que sua tia proporcionou a ela tamanha dor, tamanha humilhação. E nunca dessa, Patrícia engravidou. 

Andava pouco pelas ruas e quando fazia, era apontada por todos, do mais hipócrita aos responsáveis, que, como de costume, estavam sempre soltos, prontos para fazer o mal a mais alguém. Numa dessas saídas, conheceu Arnaldo, um pastor de uma igreja evangélica local, aquelas que gritam bastante como se deus fosse surdo. Sim, o deus de Patrícia se mostrava mais surdo do que ela queria que fosse. Conversaram um pouco, o pastor se mostrou preocupado e também muito disposto a ajudar. Nesta noite, o pastor e alguns fiéis foram até a acasa de Patrícia. O pastor explicou para Zuleica que levaria a menina, pois ele queria que ela tivesse aquele filho, fruto de um estupro, e que ele cuidaria dela como uma filha. Zuleica, que nunca quis saber da sobrinha, apenas disse: vai tarde!

Na casa do pastor, os primeiros dias pareciam dias de novelas. Mas logo começaram os problemas. Um dia, a esposa do pastor saiu para ir na cidade mais próxima, e assim, Patrícia descobriu porque o pastor queria tanto "ajudar" ela. Os ferimentos levaram dias para cicatrizar.

Patrícia, que já havia desistido de sonhar, chorava.

Um dia, acordou com fortes dores. A esposa do pastor, essa sim uma mulher boa para Patrícia, colocou ela no carro mas não sem antes proteger o banco com um plástico, e levou ela até o hospital local. Mas chegando lá, o ciclo da vida se fez presente.

Patrícia deu a luz a uma linda menina, fruto de um estupro, quiçá coletivo. Mais ou menos 1 hora depois, o sangramento aumentou, Patrícia foi ficando cada instante mais fraca, até que o monitor cardíaco passou a emitir um som contínuo. Os médicos fizeram o que puderam, mas ela se foi. Junto com os sonhos que já tinha ido, quem sabe Patrícia se encontra com eles em outro lugar melhor.

Sua filha? Vai saber, no interior, naquela época, mãe que morria e filho não tinha pai, tadinho do bebê...

Assim, a história de uma menina sonhadora acabou. Acabou num pesadelo...