sábado, 1 de maio de 2021

Aquele do "Os Causos contam..."

 Não existem limites para os sonhos, não é mesmo! Patrícia nasceu e cresceu sonhadora. Olhava as fotos nas revistas de adolescentes e queria ser como aquelas meninas, sempre muito lindas, magras, olhos sempre claros, essas coisas. Mas, ela talvez não tenha tido a mesma sorte ou a vida proporcionou a ela sonhos diferentes. Mas, uma coisa ela tinha: uma beleza tão rara no coração, que qualquer fachada externa esconderia como ela era maravilhosa. Quem vê cara, não vê coração.

Desde pequena sua vida foi sofrida. Perdeu a mãe em um acidente de moto aos 4 anos. O pai, alcóolatra, fez de tudo com ela, mas por sorte, nunca abusou dela. Ele bebia, ficava violento, mas nunca sequer encostou um dedo nela, tinha ou medo ou respeito. Sim, Patrícia era uma mulher forte e sempre, desde criança aprendeu a lidar com o vício do pai, que teve que enterrar aos 12 anos. Foi quando foi morar com uma tia, a Zuleica.

E, foi com sua tia Zuleica que Patrícia teve a certeza que capa de revista, nunca seria. Quer dizer, acabou sendo capa, mas não de uma revista de adolescentes, mas sim de um jornal popular da cidade onde morava. Já nos primeiros dias as tarefas se acumularam. Patrícia tinha que lavar, passar, limpar, e sequer pode seguir seus estudos. A menina que queria ser enfermeira e ajudar outras pessoas, logo se tornou uma espécie de escrava. Sua tia dizia, se quiser comer, tem que pagar pela comida. Quer brincar, arrume outro lugar para ficar. Patrícia estava perdida, desamparada, abandonada!

Mas infelizmente, Zuleica tinha o mesmo problema do seu irmão falecido: bebia. E bebia demais. Inclusive, era famosa no bairro por conta das bebedeiras e pelo que mais aprontava. Ela sempre foi uma espécie de alegria da rapaziada, pois como não trabalhava, trocava favores sexuais pelo que precisava - comida e não foram poucas vezes, dinheiro.

Logo Patrícia descobriria esse lado de sua tia. Foi numa quinta-feira, era mais ou menos umas 3 da tarde de um dia muito quente, Patrícia estava no tanque, lavando uma montanha de roupas quando Zuleica chegou, acompanhada de dois rapazes - apontou Patrícia para os dois e disse que queria uma parte agora e a outra a hora que eles fossem embora. Patrícia tinha acabado de completar 14 anos. 

Ela conheceu uma parte da vida que ninguém merece conhecer. A dor, o despreso, a vergonha - logo estava falada nas ruas. Foram várias as vezes que sua tia proporcionou a ela tamanha dor, tamanha humilhação. E nunca dessa, Patrícia engravidou. 

Andava pouco pelas ruas e quando fazia, era apontada por todos, do mais hipócrita aos responsáveis, que, como de costume, estavam sempre soltos, prontos para fazer o mal a mais alguém. Numa dessas saídas, conheceu Arnaldo, um pastor de uma igreja evangélica local, aquelas que gritam bastante como se deus fosse surdo. Sim, o deus de Patrícia se mostrava mais surdo do que ela queria que fosse. Conversaram um pouco, o pastor se mostrou preocupado e também muito disposto a ajudar. Nesta noite, o pastor e alguns fiéis foram até a acasa de Patrícia. O pastor explicou para Zuleica que levaria a menina, pois ele queria que ela tivesse aquele filho, fruto de um estupro, e que ele cuidaria dela como uma filha. Zuleica, que nunca quis saber da sobrinha, apenas disse: vai tarde!

Na casa do pastor, os primeiros dias pareciam dias de novelas. Mas logo começaram os problemas. Um dia, a esposa do pastor saiu para ir na cidade mais próxima, e assim, Patrícia descobriu porque o pastor queria tanto "ajudar" ela. Os ferimentos levaram dias para cicatrizar.

Patrícia, que já havia desistido de sonhar, chorava.

Um dia, acordou com fortes dores. A esposa do pastor, essa sim uma mulher boa para Patrícia, colocou ela no carro mas não sem antes proteger o banco com um plástico, e levou ela até o hospital local. Mas chegando lá, o ciclo da vida se fez presente.

Patrícia deu a luz a uma linda menina, fruto de um estupro, quiçá coletivo. Mais ou menos 1 hora depois, o sangramento aumentou, Patrícia foi ficando cada instante mais fraca, até que o monitor cardíaco passou a emitir um som contínuo. Os médicos fizeram o que puderam, mas ela se foi. Junto com os sonhos que já tinha ido, quem sabe Patrícia se encontra com eles em outro lugar melhor.

Sua filha? Vai saber, no interior, naquela época, mãe que morria e filho não tinha pai, tadinho do bebê...

Assim, a história de uma menina sonhadora acabou. Acabou num pesadelo...


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