segunda-feira, 3 de maio de 2021

Aquele do "Os Causos contam..."

Ricardo... Ah, grande Ricardo. Não éramos bem amigos, mas o mais próximo do que se assemelhava ser. Por minha culpa. Nasci de família humilde (pobre), sempre assisti meus pais economizando e contando se o dinheiro daria para tudo. Ricardo não, ele gastava meu salário na época com Petshop para seus "filhos" de quatro patas. Andava em seu carrão de 3 letras, como ele chamava, importado pois o fabricado em Santa Catarina, segundo Ricardo, não prestava. Vinhos dos mais caros, cervejas feitas apenas para ele por um produtor aqui em Pinhais, mansão em um condomínio de luxo que quando - as poucas vezes que lá fui - me deixavam com vergonha de usar um sapato com o solado tão duro quanto o meu.

Sua cozinha, tinha a área umas 3 vezes maior que minha casa. Eram 4 cachorros, 2 São Bernardos, 1 Pastor Alemão e um Dog Alemão - ambos lindos, fedidos e caros de manter. Os 2 São Bernardos tinham até um cuidador para dar banho nos dias mais quentes apenas para eles se refrescarem. Quase me candidatei a vaga, ele ganhava mais que eu - com faculdade - mas desisti pois odeio cachorros.

Sim, Ricardo tinha tudo. Tudo que um homem poderia querer. Eram jantares, eventos, mulheres cada uma mais linda que a outra, 2 carros na garagem, um de 3 letrinhas e outro, elétrico para dizer que tinha, acho que nunca usou.

Duas funcionárias, indicação de sua mãe: uma apenas para cozinhar, sempre, o que ele quisesse. Ela fazia compras, cozinhava doces, salgados e ajudava quando recebia amigos, uma coisa não posso negar, Ricardo fazia um churrasco que era pior apenas que o meu, mas a outra funcionária cuidava da casa, suas roupas ou seja, ele era realmente feliz. Sim, desde que conheço Ricardo, nunca, em segundo algum, o vi chorando... Sequer lembro de tê-lo visto sem um sorriso estampado, unhas bem feitas, cabelo sempre cortado, ternos e roupas das grifes mais famosas.

Um dia, Soraia, a sua empregada que cuidava da casa me ligou. Não porque éramos amigos, como já comentei, mas para minha surpresa, em seu celular de ultima geração, meu contato aparecia com um @meu nome, e assim, ficava em primeiro lugar na sua agenda. Ela chorava, mas estava tentando se conter. 

Ela me disse: ele está deitado aqui, no chão do banheiro... Não se mexe... A boca está toda cheia de espuma, seus pés e mãos estão roxos. O senhor poderia vir para cá? 

Aquilo me pegou de surpresa, pelas características, eu já poderia imaginar. Liguei então para o doutor Carlos, amigo em comum, pedi que ele fosse com a máxima urgência para a casa de Ricardo. Liguei na portaria, eu conhecia os "sangue-bom", pedi para não deixarem ninguém entrar ou sair na casa do Ricardo a não ser o dr. Carlos e eu. Eu morava longe, estava mais ou menos no caminho quando Carlos me ligou e disse que eu deveria acionar a polícia pois a situação era complicada. Novamente, eu que nem era tão amigo assim, liguei para um amigo que tinha um amigo e assim conseguimos um terceiro amigo que era amigo de um investigador "sangue-bom" que rumou para lá com um amigo delegado pois a situação era mesmo complicada.

Chegando lá, estavam o investigador, o delegado, dr. Carlos e os legistas do IML. Ricardo tinha exagerado na dose de algo que sequer suspeitávamos. TInha exagerado uma única vez... E foi o suficiente. Ricardo exagerou naquilo que nunca poderia ter sequer experimentado qualquer época da sua vida. 

Ricardo, antes do ocorrido e para meu desespero, deixou uma mensagem programada para mim em seu email, o qual recebi logo depois de chegar em sua casa e vê-lo morto, esticado no banheiro.

Na mensagem, dizia assim:

"Amigo,

Se receber essa mensagem, tudo deu errado. Hoje encontrei com o único amor que tive, que tenho, que carrego comigo, mas ela estava com seu verdadeiro amor e confesso, não pude aguentar. Eu sempre tudo que quis, sempre tudo que não quis, sempre pude comprar qualquer coisa, mas não comprei e nunca pude ter o conforto que meu coração queria. Desejo que Nicole seja feliz como ela puder/quiser ser, para mim chega. Amei demais, mas aquelas mãos dadas foram forte demais para mim.

Amigo, um abraço, que nunca lembro de ter te dado.

Amigo, cuida de tudo, a senha do meu cofre é xxxx e você terá dinheiro para pagar tudo e o que sobrar é seu...

Ah, ligue para o Diego e peça para ele cuidar de tudo junto com você, ele tem as instruções do que fazer.

Amigo, seja feliz, pois eu nunca fui mesmo com tudo que tive."

Terminei de ler a mensagem, esperei que tudo fosse feito como manda a lei... Sentei, chorei por algumas horas, e então, liguei para Diego. Diego atendeu, perguntou quem era, disse meu nome e ele me respondeu: venha a esse endereço, já sei o que aconteceu. Tenho alguns papeis para você assinar...

Fechei a casa, que foi lacrada pela perícia logo depois, entrei no carro, mas não fui ao endereço. Não, fui para minha casa, liguei para todos que amo, disse que os amo, pedi que nunca me abandonem. Fui ao bar, tomei a melhor cerveja em homenagem ao amigo que nunca souber ter com tamanha intensidade. 

Vá Ricardo, que a morte aquiete o sofrimento de seu coração! 

Vá Ricardo, você foi, Nicole ficou, e a vida segue!!!

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