segunda-feira, 28 de junho de 2021

Aquele do "Os causos contam..."

* Observação: este é um texto de ficção, não representa ou apresenta qualquer conexão com a realidade ou história de alguém. Ficção!


Infelizmente sua infância não foi um mar de rosas como poderia ser ou é a de pessoas mais afortunadas. Não, ele teve até que certo conforto mas desde sempre precisou ralar muito para não conseguir chegar a lugar algum. Filho de pai alcoólatra, descobriu-se também admirador de uma cachaça e assim fazia de vez em quando, era tanto, que caía pela ruas. 

Sim, a bebida acabou sendo sua companheira, sua parceira e a mãe de muitos dos problemas que ele enfrentou. Seus dentes apodreceram, sua aparência mostrava pelo menos uns 30 anos a mais do que realmente tinha. Nunca teve esposa e filhos, pois filho de uma família desorganizada, talvez menos que isso não pudesse mais ser. Nunca teve muitas ideias e nunca teve aquelo que chamam de ambição. Eram constantes os momentos onde seus amigos faziam dele um burro completo, roubavam-lhe dinheiro, vestimentas, objetos, quiçá sua dignidade. 

Por vezes, passava fome, dormia onde dava e por outras tantas vezes, nem fome sentia mais de tão comum que havia se tornado ficar sem comer. Mas, nesses dias, um trocado no sinaleiro, alimentava uma noite fria de Curitiba com a mais barata e letal cachaça que encontrasse. Uma época era engraçado, pois a 'marvada' se chamava Leãozinho... Tinha cor de cachaça mas de longe cheirava aquele etanol para carro...

Um dia, ou melhor, uma noite, estava no cruzamento da Marechal Floriano com a Avenida Sete de Setembro onde conseguiu com a benevolência de muitos que ali pararam no semáforo, juntar algo próximo a 15 reais em moedinhas e uma senhora lhe deu uma carteira de cigarros pela metade, até aqui ele nunca tinha fumado e 5 reais. Essa senhora foi realmente uma das pessoas mais importantes na vida dele, não pelo valor ou cigarros, mas foi uma das únicas que o fez sem perguntar para que era e ainda disse para que Deus o acompanhasse.

Nessa noite, juntando todos os trocados, ele conseguiu uma marmita por 10 reais, sem carne, é claro que muito arroz e farofa, mas para quem tem fome, chupar prego pode ser um alimento. Os outros 5, quase 6 reais ele negociou dois "bujãozinhos" de 250ml de Leãozinho... Achou uma cobertura, das poucas que sobraram para os moradores de rua, se abancou, e antes de comer todo aquele arroz, resolveu fumar um cigarrinho. Assim fez com 1, 2, 3, logo achou outro vício, só que mais caro. Resolveu guardar os demais para a hora que fosse beber, ou melhor, se aconchegar nos ombros da cachaça.

Jantou, juntou suas "louças" e levou até a lixeira pública mais próxima.

Organizou seus trapos, estava frio, menos de 5ºC, começou a beber e logo após, um cigarrinho atrás do outro. Ele aprendeu a gostar rápido do tal do cigarro. Talvez, estivesse levando a sério demais a questão de que o câncer mata afinal, que motivos ainda encontrava para viver? Mas, a cada amanhecer ele se lembrava da beleza do sol, e assim, tentava mais um dia achar motivos para viver mais intensamente.

Mas essa noite, não seria tão boa para ele. Um grupo de 3 rapazes, todos eles filhos de pessoas influentes da cidade, resolveu ir até uma boca, comprar um pó branco. Cheiraram cocaína até seus narizes ficarem brancos. Cheirados, esvaziaram um extintor de incêndio nas putas que fazem ponto em algumas ruas do centro. Não contentes, compraram garrafas de água e latas de refrigerante com as quais feriram pelo menos umas 4 ou 5 travestis ali do centro também. 

E quando pararam nesse sinaleiro, onde nosso personagem dormia, não perderam tempo. Lembraram daquela garrafa de álcool que havia no porta malas. Desceram os 3, jogaram álcool no ainda quase digno homem e atearam fogo. Estava frio, ele tinha pelo menos umas 3 vestes, o fogo o consumiu de forma a matá-lo quase que instantâneamente.

Ironicamente, nosso personagem era descendente de alguma raça que não sei qual é, mas ele tinha seus cabelos ruivos e era chamado de foguinho. Foguinho, morreu queimado. Foguinho, que nunca fez mal a ninguém, recebeu uma raiva gratuita que nem o pior dos piores merecia. Carregado de sua dignidade de mesmo tendo saído das piores situações, nunca ter feito nada contra ninguém.

Foguinho apenas via um mundo que poucos vem. 

Foguinho, incendiou-se, ou melhor, foguinho, foi queimado.

E enfim, foguinho se apagou para a tristeza de ninguém, para a saudade de ninguém e para não deixar marca alguma no mundo a não ser, a fuligem do seu corpo queimado.

Os autores? Estão livres, hoje devem ser engenheiros, advogados e talvez até médicos. Pois eles, tiveram tudo e não souberam usar, mas ainda assim, seus pais devem tê-los protegido.

#fui


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Desabafe!